FACULDADE FABRICA POLÍTICOS NA INGLATERRA ?

Você sabe o que os dois candidatos ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido nas últimas eleições tinham em comum? Ambos fizeram o mesmo curso: o prestigioso Politics, Philosophy and Economics, da Universidade de OxfordSegundo a mídia, o curso - conhecido como PPE -  é passaporte certo para os corredores do poder em Londres. Além de David Cameron ( primeiro-ministro que acabou de ser  reeleito) e Ed Milliband (o candidato derrotado do Partido Trabalhista), vários outros ministros e políticos do primeiro escalão britânico já passaram por lá. 

O curso tem duração de três anos. Os alunos assistem de 6 a 8 palestras por semana e têm aulas com tutores em grupos bem reduzidos - de no máximo 3 pessoas. O resto do tempo trabalham individualmente - lendo muito e preparando ensaios e artigos científicos. 

Segundo Iain McLean, que foi professor no PPE de 1978 to 1991, o curso se destaca por ser interdisciplinar e encorajar o pensamento reflexivo dos seus alunos, por meio de um método de ensino semelhante ao padrão Socrático.

Mas dizem as más-línguas que o que o curso faz é formar generalistas, que apenas forjam um conhecimento sobre uma série de assuntos; que absolutamente não conhecem nada profundamente. Crítica pesada né?  Mas essa argumentação parte até mesmo de alguns ex-alunos, que garantem que o curso é muito flexível, que muitos estudantes conseguem escapar da maioria das palestras e aulas e que se concentram apenas em entregar os trabalhos em dia. 

O único consenso parece ser que muitos dos alunos do PPE são extremamente ambiciosos mesmo e que escolheram o curso justamente porque representa um trampolim certo para uma carreira na política ou na mídia (muitos editores da BBC e do jornal The Times são ex-alunos). 




GUERRA DO BEM ENTRE POLÍTICOS INGLESES


Quem será que vence o cabo de guerra  da foto acima? De um lado, representantes dHouse of Commons (que funciona como a Câmara de Deputados no Brasil). Do outro, membros dHouse of Lords (que tem uma função mais ou menos parecida com o Senado brasileiro). O confronto é do bem e faz parte de um evento beneficente cuja renda é revertida em favor da pesquisa contra o cancer. 

A competição vai acontecer no dia 2 do mês - dia da abertura oficial do Parlamento. Os parlamentares das duas Casas se confrontam bem em frente ao Palácio de Westminster - sede do Parlamento. O clima é de brincadeira, a luta é simbólica, mas os políticos fazem força de verdade. Ninguém quer fazer feio mesmo sendo uma brincadeira, né?

A competição, que mistura homens e mulheres, está no seu 26 o ano, e inclui coquetel, jantar e champagne para os participantes no jardim do Palácio.

A foto acima está no site da MacMilliam, organização que promove a festa e desenvolve uma série de atividades e campanhas para para ajudar vítimas da doença.  

HOJE É DIA DE VOTAÇÃO NO REINO UNIDO


Casas de chá, salōes de cabeleireiro, pubs. São vários os locais inusitados que estão abrigando zonas eleitorais hoje - dia em que os eleitores do Reino Unido decidem, nas urnas, quem vão ser seus representantes no Parlamento e quem será o novo primeiro-ministro da nação

O Mike (meu marido, que é inglês) foi cedo votar. O local de votação dele é mais normalzinho : um centro comunitário da igreja do nosso bairro (a St Nicholas' Chruch, como você pode ver na foto acima).  Diferentemente do Brasil,  por aqui o sistema não é digitalizado; a urna não é eletrônica. O eleitor preenche uma cédula e a deposita na urna.


Zonas eleitorais:  abertas das 7 às 10 hs e oferecendo
 orientação ao eleitor

As zonas eleitorais - aqui chamadas de Polling Stations - ficam abertas hoje das 7 da manhã até às 10 da noite recebendo eleitores. Eu não posso votar; sou residente legal na Inglaterra, mas não cidadã britânica. O direito ao voto nessas eleiçōes - chamadas de General Elections - é restrito a cidadãos britânicos ou os cidadãos da Comunidade Britânica (Commonwealth ) residentes no Reino Unido. 

Como eu expliquei aqui, os eleitores votam nos MP (Members of the Parliament, cuja função é semelhante a dos deputados federais no Brasil). O partido que tiver o maior número de MP no Parlamento tem direito a indicar o primeiro-ministro. 

Lavanderias também funcionam como zonas eleitoriais. Foto do jornal The Guardian
O voto não é obrigatório. Para estar apto a votar, o eleitor tem que ter mais de 18 anos e ter se cadastrado antecipadamente online. Com o cadastro feito, ele terá recebido, em casa, um cartao de votação ( o Poll Card), que indica onde deve se encaminhar para a votação.

ENTENDA O PARLAMENTO INGLÊS


Daqui a duas semanas vão acontecer eleiçōes importantíssimas no Reino Unido. Além de ser escolhido o novo primeiro-ministro, serão eleitos os Membros do Parlamento  (MP)  que têm função legislativa equivalente a dos deputados federais no Brasil. 


Vão ser eleitos 650 MP - um para cada distrito do Reino Unido. Os MP formam a House of Commons (Câmara de Comuns, semelhante à Câmara Federal, no Brasil). 

A sede da House of Commons é o Palácio de Westminster, em Londres. Você provavelmente já viu foto do Palácio - é aquele famoso prédio em estilo neo-gótico, construído na época Vitoriana, com várias torres e que abriga o Big Ben, como mostram as imagens acima e abaixo ( ambas as foto são da Wikipedia ). 


 A vista aérea da uma idéia da grandiosidade da sede do Parlamento britânico
O Palácio é enorme. Composto por vários prédios e pátios interligados, ocupa 8 acres (cerca de 32,3 mil metros quadrados). É um labirinto de mais de mil salas e galerias, 100 escadarias , corredores que se estendem por três milhas e túneis intermináveis. É lá que são criadas, debatidas e aprovadas as leis que afetam todos os residentes do Reino Unido.

O Parlamento britânico funciona há 800 anos. Foi em 15 de junho de 1215 que o então monarca - King John (Rei João Sem Terra)  - assinou a  Magna Carta , primeiro documento a colocar por escrito alguns direitos do povo inglês, e por isso mesmo considerado a primeira constituição que houve no mundo. E por que o rei concordou ( e estamos falando da Idade Média! ) em assinar um documento que de certa forma reduzia os seus poderes? Bem, o monarca havia sofrido uma derrota significativa para os franceses durante a Batalha de Bouvines, perdendo o Ducado da Normandia. O rei cede então à pressão dos barões ingleses e assina a Magna Carta. Com isso, estabelece-se uma nova relação com os seus governados e a limitação do poder da Coroa - elementos primordiais a uma ordem jurídica democrática.

Para homenagear essa história , os parlamentares britânicos preservam até hoje uma série de rituais que datam de outros séculos e podem parecer, às vezes, muito anacrônicos e esquisitos para nós. Por exemplo, as sessōes começam sempre com oraçōes ecumênicas - prática que data de 1558 (mas os parlamentares não são obrigados a comparecer às oraçōes). 

Outra tradição diz respeito ao próprio posicionamento dos parlamentares quando se reúnem no Plenário Central (chamado, em inglês, de Main Chamber).  Eles sentam em bloco. Ou seja: membros do Partido Conservador sentam juntos somente de outros membros do Partido Conservador; parlamentares do Partido Trabalhista sentam ao lado somente de parlamentares do Partido Trabalhista - e assim por diante. Na prática, o que acontece é que esses dois grandes grupos (Conservadores e Trabalhadores) sentam frente a frente - o que facilita o confronto na hora do debate. E, quando o líder de um partido discursa, seus correligionários dão gritos de apoio, dizendo "Hear ! Hear " ( "Eu te escuto ( e concordo!)) !




O primeiro-ministro David Cameron é sabatinado
pela oposição no Parlamento

Toda quarta-feira o primeiro-ministro vai até o Parlamento numa outra tradição - conhecida como Prime-Minister Questions. Nesse dia ele responde, durante uma hora, às perguntas dos parlamentares sobre sua administração. Ou seja: é sabatinado pela oposição,  como você pode ver na foto ao lado.  Esse é o dia em que as galerias abertas ao público  ficam mais cheias de gente; todo mundo querendo observar o confronto. Somente residentes do país têm acesso a essas galerias, mas você pode assistir ao embate também - acesse o Youtubeas sessōes são sempre filmadas.







O confronto é sempre vigoroso, é claro, mas muitas vezes a discussão é além de calorosa - partindo para insultos, de uma maneira meio juvenil e dramática. É o teatro da política. 

Conservadores de um lado, Trabalhadores do outro: começa o confronto
na House of Commons

As sessōes acontecem no andar térreo do Plenário, que dispōe de 427 lugares - assentos estofados tradicionalmente em tecido verde. Mas como eu disse antes, são 650 Parlamentares. Ou seja: em dia de sessão movimentada, não há lugar para todos no andar térreo e muitos dos parlamentares têm que se acomodar na galeria do andar de cima (Upper Gallery). 

O que muitos parlamentares fazem para garantir um lugar quando há uma sessão importante é chegar cedo e reservar um dos assentos com uma plaquinha. Isso mesmo: a reserva é feita como uma plaquinha com o seu nome - da mesma forma que é feito há 200 anos. 

Foi o que aconteceu há algumas semanas, quando o Ministro das Finanças, George Osbourne, apresentou aos parlamentares a proposta de Orçamento para o ano de 2015.  Esse dia, bem movimentado na política britânica, é conhecido como Budget Day. Quando o Plenário abriu as portas às 8 da manhã,  já havia muitos parlamentares na fila esperando para reservar o seu lugar. Detalhe: não vale enviar um assessor para reservar o lugar - tem que ir pessoalmente mesmo; e também não vale reservar o lugar e chegar atrasado à sessão. Se não estiver pontualmente no início da abertura do Plenário, a reserva de lugar é cancelada...

Rituais no Parlamento inglês: o Presidente da Casa se dirige com pompa
ao Plenário
O funcionamento do Parlamento britânico inclui muitos outros rituais seculares e curiosos. Por exemplo, a cada sessão, o Speaker of the House (Presidente da Casa), se dirige até o Plenário de maneira formal e pomposa, passando por várias galerias e sempre cercado de assessores. Guardas gritam alto "Speaker !", para avisar as pessoas que estão perto que elas devem levantar e dar passagem ao Presidente da Casa. Outro ritual fica por conta de um outro alto funcionário do Parlamento, o Clerk of the House  (Secretário da Casa) que sempre veste uma capa do século XVIII de veludo e seda preta e uma peruca branca  - como a que os advogados britânicos usam durante os julgamentos -  para anunciar o início dos trabalhos. 

Essas roupas são tradicionais e muito bonitas, mas custam caro. Robes, capas, luvas, perucas, coletes etc chegam a custar à Casa cerca de 26 mil libras ao ano. Mas isso não é nada perto do verdadeiro abacaxi financeiro que o Parlamento enfrenta : segundo o jornal The Guardian, somente as obras de Palácio - que sofre  com problemas de estrutura, como infiltraçōes graves - vão custar cerca 3 bilhōes de libras.

Ou seja: o Parlamento realmente precisa levantar recursos. Por isso, o atual Presidente da Casa, John Bercow,  preocupado com as contas, tem tentado desde o último ano introduzir um projeto que visa a aproveitar o potencial do Palácio - aceitando contratos com companhias de cinema que desejem filmar nas dependências do Palácio. É claro que essa idéia não agradou a todo mundo. 

Mas o que eu acho mesmo muito bacana no Parlamento é a movimentação popular. Os eleitores realmente pressionam os parlamentares em que votaram - e não apenas por email; eles vão até o Palácio de Westminster, nos dias da votação de emendas ou projetos de lei que sejam do seu interesse, para checar como os parlamentares estão votando. Nós podíamos aprender a fazer o mesmo com os nossos parlamentares...

Se você  estiver em Londres e quiser conhecer de perto o Parlamento britânico, organize sua visita onlineTuristas e público em geral podem visitar algumas salas e galerias e até mesmo observar algumas sessōes. 


Leia também: 

O QUE QUEREM OS ELEITORES INGLESES ?


O Reino Unido se prepara para ir às urnas daqui a três semanas para escolher os seus representantes do Parlamento e também o seu futuro primeiro-ministro (entenda como funciona o sistema eleitoral do país aqui). Quais são, então, as preocupaçōes do eleitor britânico? Quais os assuntos que ele quer ver resolvidos pelos seus representantes no governo?

De acordo com as principais pesquisasa maior preocupação da população é com o gerenciamento do sistema público de saúde (National Health System, conhecido simplesmente como NHS). Fundado em 1948, o NHS é considerado um dos melhores sistemas públicos de saúde do mundo - uma conquista da democracia britânica. Para manter essa qualidade dos serviços médicos e odontológicos é necessário muito investimento, é claro. E é essa justamente a maior preocupação dos eleitores : há muito receio que decisões de cortes nos investimentos do setor nos últimos anos -  consequência da política de austeridade do governo do primeiro-ministro David Cameron -  estejam comprometendo (ou venham num futuro muito próximo a comprometer ) a qualidade dos serviços. 


Outra grande preocupação da população é com o controle da imigração. A maioria da população - e em especial o eleitorado conservador - aprova medidas de controle nas regras de imigração. Segundo o primeiro-ministro David Cameron, cerca de 8,3 milhoes de imigrantes chegaram ao Reino Unido de 1974 até 2004; e a previsão é que mais 4 milhoes nos próximos sete anos. Para a maioria dos britânicos, os imigrantes representam competição no mercado de trabalho. Além disso, eles ressentem o fato que imigrantes vindos de países da UE tenham acesso aos benefícios sociais britânicos.

A população também se mostra preocupada com o desempenho da economia. O país levou um susto em 2011 quando, no período de alta recessão por aqui, a economia britânica foi rebaixada a um sétimo lugar mundial, atrás do Brasil. Era a primeira vez que a economia da Grã Bretanha ficava atrás de um país da América Latina no ranking divulgado pelo Centre for Economics and Business Research. De lá para cá, a economia britânica se recuperou, mas a preocupação continua grande. O aumento do custo de vida também é prioridade especialmente entre os mais jovens (entre 18 e 24), que estão na luta pelo primeiro emprego e enfrentando dificuldades em pagar as contas do dia-a-dia.

Por fim, uma outra grande preocupação dos britânicos, de acordo com pesquisa realizada pela rede de TV ITV, é com a redução de desigualdade. Ou seja: a população tem como prioridade que os benefícios trazidos pelo crescimento econômico sejam compartilhados por todas as camadas da sociedade.  

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Como a Inglaterra evita a corrupção parte 2
Política e ética na Inglaterra

QUEM SERÁ NOVO PRIMEIRO-MINISTRO DO REINO UNIDO ?


As eleiçōes britânicas acontecem daqui a quatro semanas: no dia 7 de maio. O pleito promete ser o mais disputado da história moderna do país. Segundo as pesquisas, os dois principais candidatos ao cargo de primeiro-ministro estão tecnicamente empatados nas intençōes de voto. 

Mas você conhece os dois principais candidatos ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido? Deixa eu te contar um pouco sobre eles:

(Lembrando: o eleitor NÃO vai votar diretamente no primeiro-ministro; ele vai votar num MP - Membro do Parlamento -, que vai representar o distrito onde o eleitor mora. O partido que tiver mais MPs no Parlamento - ao todo são 560 cadeiras - ganha a eleição e seu líder passa a ser o primeiro-ministro. Eu expliquei com detalhes o sistema eleitoral britânico aqui e aqui)

Os principais candidatos ao cargo mais importante da política britânica são: Ed Miliband, líder do Partido Trabalhista ( à esquerda, na foto acima) e David Cameron - candidato à releeição pelo Partido Conservador.  Existem candidatos de outros partidos (como o do partido de ultra-direita, chamado Partido UKIP, e o do Partido Verde), mas as chances desses candidatos ganharem o pleito são praticamente nulas. 

Quais são o perfil e as plataformas dos dois candidatos com as maiores chances?


Ed Miliband, o candidato do Partido Trabalhista

  • Para começar, se Ed Miliband vencer, significa que a esquerda volta ao poder no Reino Unido depois de oito anos de governo conservador.   
  • No centro de suas propostas está a promessa de investir 2.5 bilhōes de libras no sistema público de saúde (NHS) - uma instituição extremamente eficiente e que os britânicos têm muito orgulho e preocupação. Essa preocupação é justificada, pois para funcionar eficientemente, o sistema exige investimento constante. Miliband e seu partido criticam severamente a política de austeridade do atual governo - que reduziu o investimento no setor e terceirizou muitos dos serviços da saúde.
  • Miliband promete aumentar ainda o salário mínimo para 8 libras por hora (atualmente é 6,5 por hora) e também diminuir os impostos das pessoas que têm renda mais baixa. 
  • Mas de onde Miliband pretende conseguir essa verba toda para financiar as propostas acima? Principalmente aumentando impostos dos mais ricos - como o imposto que pretende criar para os contribuintes que são donos de mansōes avaliadas acima de 2 milhōes de libras. Dá para você entender porque os super ricos ficam de cabelo em pé ao pensar que ele pode vencer a eleição...
  • Uma outra proposta do candidato do partido Trabalhista é acabar com o contrato de trabalho conhecido como zero-hora,  que ele considera "escandaloso". Esse esquema de trabalho, inventado pelo governo Conservador, é o fim da picada mesmo - pois não garante ao trabalhador um mínimo de horas trabalhadas. Funciona assim: o empregador não é obrigado a providenciar um número mínimo de horas de trabalho para o empregado. E o funcionário, por sua vez, não é obrigado a aceitar o número de horas oferecido. É um esquema de trabalho que, na prática, faz com que e o empregado nunca saiba quantas horas vai trabalhar por semana e, consequentemente, quanto receberá de salário no final da semana. A firma faz contato com o empregado um dia ou dois antes e acerta as horas de trabalho para aquela semana. Ou seja: é um esquema que beneficia apenas os empregadores. Atualmente existem 700 mil pessoas que trabalham no esquema zero hour contract no Reino Unido - muitos deles imigrantes. O candidato Trabalhista promete acabar com esse esquema. 
  •  Milliband defende ainda a permanência do Reino Unido na União Européia - ao contrário do candidato conservador. Ele argumenta que a UE é importante para a nação pois garante oportunidades de comércio e trabalho, além de constituir uma força estratégica para assuntos como, por exemplo, o combate ao terrorismo ou o desenvolvimento de políticas para lidar com alteraçōes climáticas. 
Miliband enfrenta problema de imagem

Mas para dar tudo certo para Miliband, ele tem que vencer a sua imagem de geek (palavra que significa algo como 'esquisitao'). Vira e mexe ele aparece em fotos, como essas aí do lado, fazendo caretas, com um ar meio pateta... Para grande parte do eleitorado britânico, fica difícil imaginar um geek sendo primeiro-Ministro da nação. 

Ed Miliband, líder do Partido Trabalhista, tem 45 anos, é londrino, casado e tem dois filhos. É formado pelo curso de 'Filosofia, Política e Economia' da Universidade de Oxford e fez mestrado em Economia pela London School of Economics.

E David Cameron - o candidato do Partido Conservador - quais são suas propostas? 

David Cameron defende a continuação na estrada por uma economia mais forte.
Isso significa a continuidade da política de  austeridade?
  • Bem, David Cameron está concorrendo à reeleição, como eu já disse. É primeiro-ministro de um governo de coalizão (Conservadores + Liberais Democratas) - o que é uma novidade no Reino Unido; esse é o primeiro governo de coalizão desde 1945. Diferente do Brasil, né ?, que sempre tem um presidente eleito a partir de uma grande coalizão ( às vezes de mais de sete, oito partidos).
  • Uma de suas plataformas mais importantes - e que tem grande aprovação do eleitorado conservador - relaciona-se ao controle nas regras de imigração. Há cerca de 7.5 milhoes de imigrantes no Reino Unido; e a previsão é que esse número aumente, é claro. De acordo com o primeiro-ministro, esse crescimento provoca enorme impacto sócio-econômico ao país e precisa ser controlado. 
  • David Cameron conta com indicadores econômicos positivos que mostram uma sólida recuperação da economia britânica, depois de anos de recessão. Por isso, a mensagem dele é pela continuação "na estrada para uma economia mais forte", como mostra a imagem aí de cima. 
  • Mas aí vem o problema: para vencer a recessão, sua administração se valeu de severa austeridade econômica.  E isso é um pepino para ele agora , é claro, como candidato à reeleição. Cameron enfrenta sérias críticas aos cortes feitos especialmente no sistema público de saúde (NHS). Político experiente que é, ele alega que não foram cortes e sim adequaçōes orçamentárias.
  • Seu governo é também responsável pela introdução do "contrato de zero hora", altamente impopular entre a população, como expliquei acima. Cameron entrou numa saia-justa enorme quando, pressionado recentemente por um jornalista durante um debate eleitoral televisivo, reconheceu que não conseguiria viver num esquema de trabalho desse, inventado pelo seu próprio governo...
David Cameron, candidato do Partido Conservador

  • Outro abacaxi que Cameron enfrenta é explicar a razão do escandaloso crescimento do número de pessoas que têm que recorrer a esquemas emergenciais de doação de alimentos para sobreviver. Segundo dados recentes, cerca de 900 mil pessoas no país precisam da ajuda desses esquemas - conhecidos como food banks. Eu fiz um post, há um ano, explicando essa situação aqui

  • David Cameron, atual primeiro-ministro, é londrino e tem 48 anos. É casado e tem 4 filhos. Como o seu oponente, ele também fez a graduação no curso de 'Filosofia, Política e Economia' da Universidade de Oxford.
Leia também:

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DIFERENÇAS ENTRE ELEIÇÃO NO REINO UNIDO E NO BRASIL


Daqui a 35 dias, o Reino Unido vai às urnas decidir quem vai ser o próximo primeiro-ministro. Os dois principais candidatos são David Cameron, do Partido Conservador e concorrendo à releeição, e Ed Milliband, do Partido Trabalhista. 

Mas os eleitores não votam diretamente nos dois candidatos. O sistema eleitoral no Brasil e no Reino Unido tem diferenças fundamentais:

1. Para começar, o voto aqui é distrital. Funciona assim: o Reino Unido é dividido em 650 distritos eleitorais - cada um com uma média de 70 mil eleitores. Por exemplo: o distrito onde eu e o Mike moramos se chama Liverpool Riverside (com cerca de 73 mil eleitores). 

O eleitor então vota no candidato de sua preferência para representar o seu distrito. Cada distrito elege um representante - o Member of Parliament, chamado de MP. Ou seja: 650 distritos eleitorais correspondem a 650 representantes no Parlamento (650 MPs). O partido que obtém a maioria absoluta de MPs (326 MPs num total de 650) é chamado pela rainha a formar Governo e o seu líder torna-se primeiro-ministro. O primeiro-ministro escolhe então o seu gabinete.


2. Outra diferença é que não existe segundo-turno, vence o candidato que tiver o maior número de votos no distrito - mesmo que tenha 25% dos votos, por exemplo. Por isso que os cientistas políticos chamam esse tipo de sistema de "voto distrital majoritário". 

3. A  terceira diferença importante é que aqui o voto não é obrigatório. O voto é um direito: o eleitor vota se quiser, se achar que algum candidato de fato o representa, ou se achar que é necessário que sua opinião seja representada. O cidadão que desejar votar em alguma eleição deverá ter 18 anos e se cadastrar - o cadastro pode ser feito online. 


O voto facultativo gera algumas particulariedades. Segundo o Electoral Comission, uma espécie de TRE daqui, nas últimas eleiçōes legislativas, apenas 65% da população votou.  A abstenção é significativa especialmente entre os mais jovens - cerca de 70.2 % das pessoas entre 20 e 24 anos optaram por não votar. Para tentar reverter essa situação e conquistar o eleitorado jovem, os partidos promovem programas educativos sobre a importância do voto, utilizando mídias sociais para divulgação e compartilhamento do slogan VOTE SIM !

4. A última diferença entre o sistema eleitoral daqui e o do Brasil: por incrível que pareça, aqui a eleição não é eletrônica. Acontece como era antigamente no Brasil: os eleitores marcam o representante de sua preferência numa cédula que é então depositada na urna - a ballot box

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COMO É ELEIÇÃO NA INGLATERRA ?


Às vésperas da eleição no Brasil, muitos leitores têm se mostrando super interessados sobre o sistema de votação na Inglaterra. Bem, para começar, por aqui o voto não é obrigatório. O voto é um direito: o eleitor vota se quiser, se achar que algum candidato de fato o representa, ou se achar que é necessário que sua opinião seja representada. O cidadão que desejar votar em alguma eleição deverá ter 18 anos e se cadastrar - o cadastro pode ser feito online. 

A eleição não é eletrônica. Acontece como era antigamente no Brasil: os eleitores marcam o representante de sua preferência numa cédula que é então depositada na urna - a ballot box, como é mostrada na foto. 

E se vota em quem? Nos MPs -Members of Parliament, representantes do Parlamento. Esses MPs representam os distritos eleitorais do país: são 650 representantes no Parlamento - um para cada distrito. (Veja mais detalhes sobre o Parlamento aqui). 

O partido que obtém a maioria dos MPs (326 num total de 650) é chamado pela rainha a formar Governo e seu líder tornar-se o primeiro-ministro. 

Ou seja (para reforçar e ficar bem claro): o eleitor não vota diretamente no nome do primeiro-ministro ; e sim no representante do Parlamento (MP). O sistema é parlamentarista - não existe presidente da república.

Existem muitos partidos no Reino Unido - os principais são o Conservative Party (Partido Conservador), do primeiro-ministro David Cameron, o Labour Party (Partido Trabalhista) e o Liberal-Democratic Party (Partido Liberal Democrata), que atualmente faz coalizão com o governo de Cameron. 

Em maio do ano que vem acontecem as eleiçōes para o Parlamento. Se o partido Conservador ganhar a maioria das cadeiras no Parlamento, David Cameron vai conseguir um segundo mandato como primeiro-ministro. Se o Partido Trabalhista vencer, o líder desse Partido, Ed Milliband, será o novo primeiro-ministro. 



MÍDIA BRITÂNICA: INTERESSE NA ELEIÇÃO DO BRASIL


A mídia britânica acompanha com atenção e interesse a reta final da corrida presidencial brasileira, analisando as chances dos três candidatos mais bem colocados nas pesquisas. Marina Silva parece estar concentrando as atençōes da mídia em geral - já li matérias favoráveis à candidata, outras neutras e algumas com muitas críticas. 

O jornal Financial Times  avaliou recentemente o impacto verde de uma possível vitória de Marina na matéria cujo título diz tudo: "Victory for Marina would be just in time for the Amazon" ("Vitória de Marina pode chegar a tempo para a Floresta Amazônica"). Já o The Guardian perguntou aos seus leitores recentemente: "Will Brazil elect Marina Silva as the world's first Green President ?" ("Será que o Brasil vai eleger a primeira presidente verde do mundo? " ). A influente revista The Economist, por outro lado, não poupou críticas à candidata afirmando que Marina tem de "fazer mais para provar que merece" o Palácio do Planalto. A revista afirma ainda que "há pouca substância e muita conversa sonhadora sobre a 'nova política'" no discurso da ex-ministra. 

COMO BRASILEIRO PODE VOTAR NA INGLATERRA ?


Uma leitora me perguntou: como os brasileiros morando na Inglaterra votam? Bem, a primeira providência que eu fiz para para poder votar aqui na Inglaterra foi transferir o meu domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para a Inglaterra. Como fiz isso? Me dirigi, no início do ano, ao Consulado do Brasil em Londres munida de originais e cópias de vários documentos (entre eles comprovante de residência no Reino Unido - veja lista completa aqui ) e requisitei a transferência do meu título. O Consulado enviou o meu pedido de transferência de domicílio eleitoral + as cópias dos meus documentos ao Cartório Eleitoral do Exterior, em Brasília. O órgão analisou e deferiu o meu pedido e enviou meu novo título para o Consulado. Aí foi só buscar o o documento no Consulado. 

Com o meu título novo, eu posso votar aqui na Inglaterra. Esse ano há dois lugares para votar: no Consulado-Geral ou na Embaixada do Brasil - ambos localizados em Londres. O local depende, é claro, da seção de cada eleitor. 

Ah, os eleitores inscritos para votar em Londres que não puderem comparecer ao local de votação no (s) dia(s) de eleição deverão preencher o requerimento de justificativa e enviá-lo pelos correios à apreciação do Juiz eleitoral competente. (Informe-se melhor aqui  e aqui).  

Quem quiser fazer essa transferência de título deve saber que o novo documento demora geralmente entre 4 a 6 meses para chegar - contando a partir da data que foi solicitada a transferência. E a transferência do título deve ser requerida 150 dias antes da data da eleição.

ESCÓCIA DECIDE, NA QUINTA, SE DEIXA REINO UNIDO. ENTENDA AQUI !


É o grande acontecimento da semana por aqui: na quinta-feira a Escócia decide, por meio de referendo popular, se continua a fazer parte do Reino Unido. A campanha do 'sim' - a favor da saída da Escócia - tem mostrado mais força nas últimas semanas e, recentemente e pela primeira vez, uma pesquisa de opinião apontou uma pequena vantagem para os separatistas. Mas as pesquisas indicam que existem ainda quase 700 mil indecisos - são cerca de 4,3 milhōes de eleitores. 


Campanha pelo 'yes', a favor da separação,
ganha força 
Para conquistar essa massa de indecisos, o embate tem se tornado mais acirrado, especialmente nesses dias que antecedem o plebiscito. O clima é semelhante ao de antes de uma grande eleição no Brasil : militantes fazem corpo-a-corpo e caminhadas pelas ruas; políticos realizam comícios e há debates nos meios de comunicação. A mídia garante que a Escócia nunca viu tanta mobilização política como agora. 

PERDAS E GANHOS - Se a separação acontecer, o Reino Unido vai perder um terço do seu território e a Escócia, depois de 307 anos de união, terá que aprender a caminhar sozinha. Será fácil? Os nacionalistas garantem que a vida pós-separação será muito melhor - especialmente por causa do petróleo: sem ter que dividir os rendimentos do petróleo do Mar do Norte, a Escócia teria cerca de 26 bilhōes de reais a mais por ano. Grande parte desse dinheiro - ainda segundo os nacionalistas - seria investido em bem estar social (educação e previdência, principalmente) e transformaria a Escócia numa 'Nova Noruega'. Mas será que as receitas do petróleo podem garantir isso mesmo? Alguns especialistas argumentam que não, já que as reservas são menores do que as esperadas. 


Slogan do movimento pelo 'no ' :
"Melhor juntos. Uma Escócia mais forte, um Reino Unido".
Outros analistas são ainda mais pessimistas. Segundo o economista-chefe do Deutsche Bank, David Folkerts-Landeu, a independência seria um "erro económico" . Ele alertou ainda para o risco de "recessões, subida de impostos, quebra no investimento público e aumento das taxas de juro".

Se a separação se concretizar, não será apenas a Escócia que enfrentará mudanças - um novo Reino Unido também sairá das urnas; menor e menos influente. Esse seria um baque e tanto para a nação, que tem enfrentado o encolhimento do território desde a Primeira Guerra Mundial. Só para relembrar : o Reino Unido é composto hoje pela Inglaterra (capital: Londres) + Escócia (capital: Edimburgo) + País de Gales (capital: Cardiff) + Irlanda do Norte (capital: Belfast). Alguns analistas avaliam que a separação da Escócia poderia abrir caminho para que o País de Gales e a Irlanda de Norte sigam o mesmo rumo. O primeiro-ministro britânico, o conservador David Cameron, é absolutamente contra a idéia da separação -  já afirmou que não suportaria ver o Reino Unido "destroçado" sem a Escócia.  



Atualmente, a Escócia já tem um certo grau de autonomia local - possui seu próprio Parlamento, sediado em Edimburgo, que decide várias questōes regionais e tem autoridade para criar muitas leis - com exceção a assuntos relacionados à defesa, segurança nacional, pensōes e previdência social. Essas questōes são decididas pelo Parlamento em Londres (vale lembrar, que o Parlamento britânico é composto por duas casas - a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes - expliquei detalhes de como funciona o sistema político do Reino Unido nesse post aqui)


Eu, na frente da sede do Parlamento escocêes, em Edimburgo, no ano passado.

O prédio, dá para notar, tem arquitetura modernosa

Com cerca de 5.3 milhōes de habitantes (8 % da população do Reino Unido), a Escócia contribui com cerca de 9% do PIB britânico. A economia do país é diversificada: além do petróleo, é um grande centro financeiro e exportador de uisque. Seu eleitorado, tradicionalmente de esquerda, se ressente das políticas de austeridade implantadas pelo governo conservador do primeiro-ministro David Cameron. 

Se a separação acontecer, existem muitas questōes que terão que ser resolvidas, especialmente a que envolve a moeda do país - atualmente é a libra, como em todo o Reino Unido. Qual seria a nova moeda? Alguns analistas apostam que o país adotara o euro. Outros ponderam que poderá haver uma 'librização' - utilização da libra da mesma maneira como o dólar é utilizado em alguns países latino-americanos. 

Independente ou não, a Escócia é um país que vale muito a visita. Recentemente, estive em Glasgow (veja aqui e aqui) e antes disso, no ano passado, em Edimburgo, capital do país, veja aqui e aqui. Adorei as duas cidades.

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