A VERDADE SOBRE MORAR NA INGLATERRA


Eu recebo semanalmente de-ze-nas de emails de leitores que, muito decepcionados com o Brasil, desejam morar em um outro país - como a Inglaterra. Eles me pedem dicas sobre trabalho, salário e custo de vida por aqui. O que digo para todos é o que vou tentar resumir agora. 

A realidade de morar na Inglaterra tem dois lados...

O lado bom:

1. O serviço britânico público de saúde  (National Health System, conhecido simplesmente como NHS) é excelente. O atendimento, a eficiência e a organização estão a milhōes de anos de luz do sistema público de saúde no Brasil. É claro que o acesso a esse sistema é restrito aos residentes legais no país ( salvo em caso de um turista precisar de uma emergência médica). 

2. Para quem aprecia, a vida cultural na Inglaterra é fantástica. Há muitas opçōes de museus, castelos, galerias de arte, peças de teatro, shows etc - e não apenas na capital. Todas as cidades de porte médio oferecem permanente e interessante agenda cultural. E mesmo os vilarejos contam com suas feiras, festas e atraçōes locais. 

Mas, infelizmente - e aí já vou mencionando o outro lado dessa moeda -  muitas dessas opçōes, como espetáculos teatrais e de ballet, não são grátis, é claro. (Vale dizer que no caso dos museus públicos, por exemplos, a visita ao acervo permanente é grátis; porém o ingresso às exibiçōes temporárias são geralmente pagas). Ou seja: muitos brasileiros que vivem aqui não têm dinheiro para apreciá-las. Não têm dinheiro, nem tempo...

3. Tudo na Inglaterra é mais organizado e prático que no Brasil. O cidadão não enfrenta uma burocracia estressante no seu dia-a-dia como acontece muitas vezes no Brasil. Resolver um assunto numa repartição pública, por exemplo, é algo relativamente fácil.

4.O contribuinte é respeitado. Se você compra algo que apresenta defeito ou não corresponde às suas expectativas, você volta na loja e troca o produto ou ainda devolve o produto - contanto que você apresente nota fiscal e o produto tenha etiqueta - sem estresse.

5. O transporte publico funciona - e é muuuuito bom não ser escrava do carro. Na Inglaterra - assim como em muitas cidades da Europa -  o trem e o metrô são eficientes e facilitadores da vida do cidadão. Concordo inteiramente com o post publicado no ótimo blog Virando Gringa : "... Eu aprendi que carro é luxo. Carro é pra ser usado naquelas distâncias mesmo longas, tipo viagens de uma cidade pra outra. Sabe porquê? Transporte público funciona. E a bicicleta é uma alternativa de transporte realmente viável, não apenas um luxo de alguns grupos ousados de pessoas, como no Brasil." 

Eu já tinha feito uma reflexão semelhante aqui.

6.  Não há violência no nível do Brasil. Assalto à mão armada no meio da rua, roubos de carros, arrastão na praia - essas coisas não acontecem no dia-a-dia.

7. O custo de vida na Inglaterra ė menor que no Brasil. É sim, eu garanto. O conceito 'custo de vida' considera a moeda do salário local do trabalhador (ou seja: se você mora no Brasil, o real; se mora na Inglaterra, a libra; se mora nos Estados Unidos, o dólar - e assim por diante) + os gastos com habitação, educação, saúde, lazer, impostos, serviços  + a qualidade desses serviços. Pois bem, se compararmos os gastos mensais de um trabalhador inglês e de um trabalhador brasileiro que ganhem exatamente a mesma quantia ( por exemplo, mil libras / cerca de 4,7 mil reais) dá para perceber que, na ponta do lápis, o cidadão inglês sai ganhando. (Expliquei isso nesse post aqui.) 


8. Um dos motivos que leva o cidadão a ter segurança em relação ao custo de vida é o fato que aqui não há inflação 

Mas como nem tudo na vida são flores... 

O lado complicado de morar na Inglaterra:



1. A competiçao por trabalho é grande - há muitos imigrantes legais, vindos de países da Comunidade Europeia, que vêm em massa para a Inglaterra atrás de trabalho. Milhares de poloneses e portugueses, por exemplo, deixam seus países para tentar a vida por aqui. Mas esses imigrantes vindos da Comunidade Européia são imigrantes legais, com direito a trabalhar e até a conseguir benefícios sociais.

Só para dimensionar: segundo o último censo, há 7,5 milhoes de imigrantes vivendo na Inglaterra e no País de Gales atualmente - número duas vezes maior que há dez anos e que representa 13% da população desses dois países.

2. Muitos imigrantes legais só conseguem emprego num esquema conhecido como ' zero hour'. Nesse esquema, o empregador não é obrigado a providenciar um número mínimo de horas de trabalho para o empregado. E o funcionário, por sua vez, não é obrigado a aceitar o número de horas oferecido. É um esquema de trabalho que, na prática, faz com que e o empregado nunca saiba quantas horas vai trabalhar por semana e, consequentemente, quanto receberá de salário na semana. A firma faz contato com o empregado um dia ou dois antes e acerta as horas de trabalho para aquela semana. Não é o melhor dos mundos, não é mesmo?

3. Engenheiros, médicos, advogados e outros profissionais brasileiros precisam ter seus diplomas revalidados - processo lento e caro. Não dá para simplesmente chegar aqui, mostrar seu diploma de enfermeira de uma universidade brasileira, por exemplo, e achar que vai ser contratada...

4. Viver em Londres - onde muita gente sonha - é caríssimo. O aluguel é mesmo absurdamente caro - escrevi alguns posts sobre isso...

5. O frio é de amargar mesmo. Faz um frio brabo de novembro até o final de março. Sem contar a chuva, o vento e os dias eternamente cinzentos. Só a partir de abril é que começa a melhorar.

AGORA EU ENTENDO ...


Só agora, morando aqui em Liverpool, é que eu entendo essa obsessão dos britânicos com o tempo. Numa terra em que chuva, neblina e frio  são constantes, qualquer mudança de temperatura é bem vinda, comentada e se torna motivo de reportagens e mais reportagens na TV e jornais. E, nos últimos dias, todo mundo tem tido motivo de sobra para papear sobre o tempo: os termômetros marcam 16C, 17C e até mesmo 18C ! A primavera chegou mesmo !

 Eu mesma me peguei comemorando muito quando, finalmente, consegui aposentar algumas camadas de roupas que vestia diariamente - desde outubro ! - para enfrentar o frio. Não estou mais usando meia-calça - viva !! Estou vestindo somente uma suéter fininha - viva, viva! Troquei as botas por uma  sapatilha - hurrah !! E - inacreditável ! -  saí ontem de casa sem casaco !! Estava tão feliz ... Cheguei a pensar: Meu Deus, estou me tornando uma inglesa: ficar animada com 18C...

Mas, como tudo que é bom dura pouco, hoje o dia amanheceu nublado e chuviscando...

EMPREGO E SALÁRIO NA INGLATERRA


Qual o salário de um médico na Inglaterra? E de um professor? Ou de um garçon? É fácil conseguir emprego por aqui? Esse é o tipo de pergunta que muitos leitores me fazem.  Para dimensionar as oportunidades de emprego e salário na Inglaterra, é fundamental considerar alguns aspectos:  

Recessão.  A Inglaterra ainda enfrenta uma das piores recessōes das últimas décadas. A situação está melhorando aos poucos, mas ainda não é fácil conseguir um bom emprego por aqui.


Valor de salários. Os salário de algumas profissōes são bem interessantes, se comparados com a média no Brasil. Por exemplo, os professores ingleses do ensino fundamental estão entre os mais bem pagos da Europa - recebendo cerca de 40 libras (cerca de 120 reais) por hora em sala de aula. Como trabalham cerca de 684 horas por ano, ganham cerca de 27, 8 mil libras por ano - 83 mil reais por ano; cerca de 7 mil reais por mês (dados do pesquisa da Organisation for Economic Co-operation and Development). 




O jornal The Mirror publicou recentemente uma lista com dezenas de profissōes e média de respectivos salários anuais brutos - os dados são do Office for National Statistics, agência do governo. Alguns exemplos (veja a lista completa aqui): 



  • garçons e garçonetes: média de 7.654 libras por ano;
  • enfermeiros: 26.158 libras por ano;
  • veterinários: 32,374 por ano;
  • motorista de trem: 45. 489 libras por ano.
Mas os imigrantes têm acesso a esses empregos e salários?  Os melhores empregos e salários exigem que o profissional seja legal no país, que tenha sua qualificação profissional reconhecida no Reino Unido e seja fluente em inglês. Apresentar essas três exigências não é fácil. O jornal The Guardian publicou no sábado um longo artigo contando a história de profissionais estrangeiros que, ao imigrarem para cá (por motivo de asilo político), conseguiram empregos muito aquém de suas expectativas, porque suas qualificaçōes não foram reconhecidas no Reino Unido. Por exemplo: um advogado paquistanês que mora em Liverpool teve que fazer um curso bem caro na Inglaterra para tentar conseguir emprego na área - ele explicou ao jornal que no seu país tinha mais de 10 anos de experiência; aqui está sendo considerado um novato. 


Tiegisty: qualificação, mas sem emprego
na área

O jornal citou ainda o caso de Tiegisty Kibrom, 27 anos, formada em Ciências da Computação no seu país - Eritreia, no nordeste da África. Apesar do diploma, ela trabalha como arrumadeira num hotel em Londres - seu salário é de 6,31 libras por hora (pagamento mínimo por hora de trabalho). E mesmo fazendo um segundo curso numa universidade britânica  - Internet Computing, pela Manchester Metropolitan University -, ela ainda não conseguiu emprego na sua área.  "I was expecting  I'd get a better job. I am not ashamed to do a cleaning job. It just embarrasses me that, with all my skills, I can't find a single opportunity in my field" ("Eu esperava conseguir um trabalho melhor. Não é que eu tenha vergonha de arrumar quartos. Mas, com as minhas qualificaçōes, é constrangedor que eu não tenha conseguido uma única oportunidade na minha área), disse ela, desolada, ao The Guardian. 


Oportunidades. Mas, apesar da crise e das dificuldades, é claro que muitos imigrantes conseguem bons empregos. Por exemplo: há milhares de médicos estrangeiros trabalhando para o NHS (Serviço de Saúde Pública) no Reino Unido - são mais de 88 mil (sendo cerca de 23 mil desses da Europa). O General Medical Council (semelhante ao nosso Conselho Federal de Medicina) exige, é claro, documentação com comprovação de qualificação profissional e proficiência em língua inglesa aos médicos. Para quem tiver interesse, o  site do NHS oferece informaçōes sobre jornada de trabalho e salário em hospitais da rede pública do Reino Unido.


Esse link da BBC News (pesquisa de 2013) mostra mostra quais são as profissōes em demanda no Reino Undo: entre elas enfermeiras, chefs e vários tipo de engenheiros.

Leia também:

O valor do salário na Inglaterra


DICAS : MORAR NA INGLATERRA


Continuo hoje com as entrevistas que fiz com os brasileiros que vivem em Liverpool e que dão dicas para quem quer morar na Inglaterra.


A entrevistada de hoje é a linda Deva Morgan, 36 anos, que mora na Inglaterra há sete anos. Ela passou um tempo em Londres e agora vive em Liverpool com o marido britânico e o filhinho de três anos. Profissional competente, Deva recentemente abriu um centro de depilação, manicure e pedicure - o Liverpool Waxing Spa  - e já conquistou muitas clientes na cidade.

Como você veio parar aqui na Inglaterra?
Eu sou de Cuiabá e vim para cá com um namorado; a idéia era ficar 2 anos trabalhando. O namoro terminou logo depois, mas eu decidi permanecer em Londres. Trabalhei como depiladora e manicure; tinha muitas clientes em Londres. Me apaixonei por um britânico, casamos e me mudei para Liverpool depois do nosso casamento.



Deva aproveitando todas as estaçōes na Inglaterra
Você mora no Wirral, uma região pertinho de Liverpool. Como é a vida lá?
O Wirral é uma região residencial, muito segura, ótima para criar filhos. A rua onde moramos é super tranquila, se eu quiser nem preciso trancar a porta de entrada da minha casa. Mas, ao mesmo tempo, fica perto do agito de Liverpool - cerca de 20 minutos de trem.

O que é o melhor da vida na Inglaterra?
Sem dúvida alguma, o custo de vida. Supermercado, restaurantes, lojas - tudo têm um preço justo. Você trabalha, dá duro, mas aproveita a vida também : sobra dinheiro para o lazer - viajar, se divertir. 

O que sente falta do Brasil? 
Sinto falta do calor humano do Brasil. Aqui as pessoas são mais frias, é mais difícil fazer amizade.

Você tem planos de voltar ao Brasil?
Por enquanto não. Minha vida está estabelecida na Inglaterra : sou casada, tenho um filho pequeno e acabei de abrir um centro de depilação. Por enquanto, volto ao Brasil só para matar as saudades, rever parentes e amigos.

Qual a sua dica para quem quer morar na Inglaterra?
Não more em Londres ! - é uma cidade muito cara mesma ! O melhor é morar numa cidade menor e viajar para Londres para passear ...



O Liverpool Waxing Spa fica dentro do Racquet Club, Hargreaves Building, na 5 Chapel Street - centro de Liverpool. Telefones: 0795-625-4306 / 0151-227-3888.






CARTÃO DE RESIDENTE NA INGLATERRA


Depois de enfrentar a burocracia para conseguir o visto de noiva - necessário para qualquer brasileira que deseje se casar na Inglaterra com um cidadão britânico e morar no país - eu e o Mike nos casamos em Liverpool em outubro. Um mês depois do casamento, me candidatei ao biometric resident permit, cartão que comprova que eu tenho o direito de residir, trabalhar ou estudar no Reino Unido e que pode ser usado como uma forma de identificação. Foi um processo que envolveu a apresentação de dezenas de documentos que comprovaram que o meu casamento é legítimo e verdadeiro; que eu tenho condiçōes financeiras para me manter no Reino Unido (ou seja: não vou recorrer a benefícios do governo para sobreviver); e que eu e meu marido temos acomodação garantida no país. 


A UK Border agency é a agência federal que concede o cartão de residente aos imigrantes 


O processo é organizado pela UK Border Agency,  agência do governo que cuida das solicitaçōes dos diferentes tipos visto no Reino Unido. Depois de preencher e imprimir o formulário online (com perguntas sobre mim e meu marido) e pagar a taxa de solicitação do permit, marcamos a entrevista no escritório da UK Border Office aqui em Liverpool. Lá, além de me submeter a um teste biométrico, eu entreguei os documentos que comprovam que tudo que eu informei no formulário online era verdadeiro. Basicamente eu entreguei todos os documentos que já havia entregue para conseguir o visto de noiva (veja lista detalhada aqui) + a certidão de casamento, fotos da cerimônia e lua de mel. 

Esperamos enquanto uma funcionária analisava, com calma, toda a documentação. Passados cerca de 40 minutos ela informou que os documentos estavam OK e que ela havia concedido o permit. Ela explicou ainda que o meu cartão chegaria pelo correio em cerca de 10 dias úteis. O cartão, que chegou dentro do prazo previsto, é como uma identidade brasileira: com fotografia, nome completo, data de emissão e assinatura. Ele vale dentro do Reino Unido; não substitui o passaporte, no caso de eu viajar para o exterior. Tirei uma cópia colorida, que plastifiquei e agora mora na minha carteira; o original deixo em casa.

Vale lembrar que nós também regulamentamos nosso casamento no Consulado brasileiro em Londres. 

REGISTRO CASAMENTO NA INGLATERRA


Muita gente me perguntou: depois de casar aqui na Inglaterra, com um britânico, uma brasileira tem que fazer o quê para completar a regularização? Eu estou seguindo os passos discriminados pela UK Border Agency (agência que trata da imigração no Reino Unido) e pelo Consulado Brasileiro. Pois bem, depois de conseguir meu visto de noiva para poder casar aqui, eu casei em Liverpool e agora estive em Londres para regulamentar o casamento no Consulado do Brasil. De acordo com o site do Consulado do Brasil, o "casamento celebrado por autoridade estrangeira é considerado válido no Brasil; contudo, para produzir efeitos jurídicos no país, deverá ser registrado em repartição consular brasileira". Se você tiver qualquer dúvida, cheque o site do Consulado Geral do Brasil em Londres; é tudo bem explicadinho.

Foi bem fácil: primeiro eu agendei online um horário no Consulado. Em seguida, imprimi e preenchi o formulário que estava disponível online. Tarefa super simples: apenas dados básicos meus e do Mike. No dia marcado, levei até o Consulado os documentos originais e cópias: os meus documentos (passaporte, certidão de divórcio) e os do Mike (passaporte, certidão de nascimento e certidão de divórcio, chamada de Decree Absolut ) + a nossa certidão do nosso casamento. Lá no Consulado mesmo pagamos uma taxa de cerca de 17 libras e pronto: eles deram o documento de registro do documento. Próxima etapa: a certidão que eles me deram no Consulado deverá ser transcrita (transladada) em cartório no Brasil. 



A CONTRIBUIÇÃO DOS IMIGRANTES

Qual a real contribuição dos imigrantes no crescimento do Reino Unido? Essa parece ser a pergunta de um milhão de libras, difícil de ser respondida e motivo de enorme polêmica por aqui. Deixa eu explicar o contexto: segundo o último censo, há 7,5 milhōes de imigrantes vivendo na Inglaterra e no País de Gales atualmente - número duas vezes maior que há dez anos e que representa 13% da população desses dois países. 

Os imigrantes que vêm da União Européia podem imigrar e trabalhar no Reino Unido sem necessidade de visto ou qualquer tipo de burocracia. E mais ainda: eles têm direito a benefícios, como seguro-desemprego e sistema de saúde daqui. A  encrenca se estabelece porque,  claro, esse tipo de acolhida generosa não agrada a uma parte da população. A mídia de direita vira e mexe apresenta dados mostrando ondas de imigração que considera assustadoras - recentemente, por exemplo, foi divulgado com estardalhaço um crescimento de mais de 25% (nos últimos três meses) no número de romenos e búlgaros por aqui. Outras notícias e colunas de opinião relatam como os imigrantes "abusam " do sistema britânico de benefícios e tiram trabalho dos nativos. O primeiro-ministro David Cameron tem se empenhado em reduzir o nível de imigração: recentemente ele afirmou que os imigrantes representam a "constant drain on public services" ( um esgotamento nos serviços públicos").

Pois bem:  um estudo divulgado essa semana pela University College London revelou que   os imigrantes da União Européia que chegaram na última década ao país são, na verdade, bem produtivos. Eles contribuíram com £25 bilhões a mais em imposto para o governo britânico do que receberam em benefícios. Dados mostram ainda que o Reino Unido atrai imigrantes altamente educados e qualificados.

Ponto para os imigrantes, né?

No entanto, no mesmo dia o jornal de direita Daily Mail reforçou a artilharia e publicou matéria revelando que, nos últimos 16 anos, imigrantes vindos de outras partes do mundo (e não da Europa) utilizaram £100 bilhōes a mais em benefícios e serviços do que contribuíram aos cofres públicos - um déficit que os especialistas chamam de 'contribuição fiscal negativa'.

O assunto é polêmico mesmo, vive nas manchetes dos jornais e encoraja o debate. Essa matéria aqui do The Guardian provocou mais de 400 comentários dos leitores. 

Leia também:

Vida de imigrante
Qual a segunda língua mais falada na Inglaterra
Visto de noiva


VIDA DE IMIGRANTE


Agora eu entendi - eu sou uma imigrante. Deixa eu explicar melhor:  é claro que eu já sabia que era uma imigrante. Mas era um conhecimento daquele tipo entendo-mas-não-caiu-a-ficha-ainda. Eu sabia que eu morava fora do Brasil - o que, vamos combinar, tem até um certo charme e glamour. Morar na Inglaterra, que sonho ! Aquelas mansōes rurais, a história, a cultura, o sotaque chique...  

Mas agora eu entendi que eu não apenas moro fora - eu sou uma imigrante. E isso é bem diferente. Eu li no blog da Margaret, que ser imigrante é viver no meio de "incertezas, medos, engolir muito sapo, matar um leão por dia, ter arrependimento, culpa, vencer obstáculos e sentir-se burro". Ah, concordo - acontece tudo isso - não ao mesmo tempo, graças a Deus ! - mas acontece.

Essa sou eu agora: me acostumando a ser uma imigrante. 

Como não sentir saudade?
A ficha caiu após uma reunião com brasileiros que moram em Liverpool. Eles se reúnem a cada quinze dias - gente muito boa, cada um com uma estória de vida. Vieram parar no Reino Unido por motivos diferentes e podem ser divididos em dois grupos: alguns estão meio de passagem - como o jovem que faz doutorado numa universidade britânica. Ele vai terminar sua tese, celebrar a conquista do diploma e voltar para o Brasil. Mas outros estão estabelecidos aqui de uma maneira permanente - são os imigrantes, o meu grupo:  são geralmente casados com ingleses e têm emprego fixo, como a médica que trabalha para o NHS (sistema público de saúde) e a empresária que está abrindo o seu salão de depilação, manicure e pedicure na cidade. 

Bem, esses brasileiros de Liverpool se reúnem, conversam, trocam experiências, lembram saudosos do Brasil, da família, dos amigos... Falam português - atividade às vezes meio esquecida ou difícil de ser praticada se você trabalha numa empresa inglesa, cercado por colegas ingleses, na Inglaterra... E se dedicam a uma atividade que parece ser comum a todos os imigrantes: comentar sobre as dificuldades que enfrentam. Imigrante que é imigrante ( principalmente o novato) reclama da adaptação: língua, comida, a cultura, pessoas - isso aqui é tão diferente do Brasil !

Essa sou eu agora: me acostumando a ser uma imigrante. Sentindo muuuuita falta da praia - mesmo que não tenha quase nunca pisado nas areias de Ipanema nos últimos meses que morei lá. Lembrando como era gostoso o calor de 40 C à sombra (aquilo sim é verão !) e aguando por um pão de queijo e um caldinho de feijão. 

Essa sou eu agora: aprendendo a entender o ácido humor britânico; decidindo se meu jornal favorito é, afinal, o The Times ou o The Guardian e me pegando apreciando a minha segunda xícara de chá pela manhã.  


PREPARATIVOS PARA NOSSO CASAMENTO NA INGLATERRA



"I, Claudia, take you, Michael, to be my wedded husband. I give you this ring on our wedding day as a symbol of my love for you. I promise to love you, care for you and respect you for the rest of our lives." Eu vou repetir essas palavras durante a cerimônia do meu casamento com o Mike. Não sou noiva de primeira viagem, mas já estou meio nervosa desde agora - ai Deus, espero não ficar emocionada demais e errar alguma frase. 

Com a data se aproximando, eu e o Mike estamos envolvidos com os preparativos finais para a cerimônia, que vai acontecer no belíssimo e histórico St George's Hall, aqui em Liverpool. Imponente, ele abriga hoje alguns serviços públicos municipais - entre eles o cartório geral da cidade, e é super popular popular entre quem vai casar na cidade.
St George's Hall, em Liverpool
Há duas semanas, nos dois fomos até o local para dar entrada na papelada para a cerimônia (aqui chamam de give notice). Tínhamos uma hora marcada e pontualmente uma funcionária do cartório recolheu nossos documentos: certidão original de nascimento do Mike (chamada em inglês de full birth certificate), meu passaporte, certidōes originais de divórcio (a do Mike se chama "Decree Absolute" e a minha teve que ser apresentada com tradução juramentada) e comprovante de residência.  Ela tirou cópias e devolveu os originais.

O St Geoge's Hall oferece dois espaços para a realização de casamentos civis: o The Grand Jury Room (onde vai ser a nossa cerimônia, um lindo salão com capacidade para 70 pessoas) e o Sefton Room. A funcionária nos entregou vários folhetos que explicam absolutamente todos os detalhes da cerimônia: por qual entrada noivos e convidados devem chegar (lembrando que o prédio é imenso); local de estacionamento de carros; o funcionário (chamado de usher) que receberá os noivos; ambientes para fotografias ao ar livre etc. 



Voltamos para casa com um dever de casa: preencher e depois devolver ao cartório um formulário com escolhas pessoais sobre a cerimônia. Explico melhor: o casamento segue um padrão estabelecido - mas que permite pequenas variaçōes, de acordo com o gosto dos noivos. Nós podemos, por exemplo, escolher o texto dos votos da cerimônia e as músicas. No site do cartório há um link com uma lista imensa de sugestōes de músicas. Os noivos podem escolher três: uma para a entrada, outra para a hora da assinatura dos documentos e a última para ser tocada ao final. Existe ainda a possibilidade de leitura de poemas ou versos específicos sobre casamento/amor e a escolha de uma criança da família para entregar as alianças (ele é chamado de ring bearer ) numa almofadinha na hora da troca das mesmas.

É sempre importante lembrar que uma brasileira que more no Brasil, deseje se casar na Inglaterra com um cidadão britânico e morar no país tem que se candidatar, antes de sair do Brasil,  a um visto de noiva. É um processo demorado, que envolve a coleta de dezenas de documentos, mas não há como fugir dele. A noiva recebe o visto no Brasil e, aí sim, pode vir para o Reino Unido se casar. Eu expliquei o passo-a-passo aqui. O visto vale por seis meses e dentro desse prazo o casamento deve ser realizado.

VISTO DE NOIVA INGLATERRA

É desgastante, mas não há como fugir dele. Uma brasileira que deseje se casar na Inglaterra com um cidadão britânico e morar no país tem que se candidatar a um visto de noiva. É um processo demorado, que envolve a coleta de dezenas (!) de documentos. Basicamente, o governo britânico quer ter certeza que o seu relacionamento com seu noivo é legítimo e verdadeiro (ou seja: não é uma armação, vocês realmente pretendem se casar e viver juntos); que você tem condiçōes financeiras para se manter no Reino Unido (ou seja: você não vai recorrer a benefícios do governo para sobreviver); e que vocês têm acomodação garantida no país (apartamento alugado ou próprio, casa dos pais do noivo etc). 


Eu passei recentemente por isso e resolvi fazer um passo a passo para ajudar quem precise. 

Mas esteja atenta ao noticiário; o governo britânico regularmente anuncia mudanças nas regras de imigração

Antes de mais nada, acho importante ressaltar que como o governo britânico não oferece - pelo menos até a data de hoje - uma lista definitiva de documentos a serem apresentados, eu chequei mil sites  (além do site da autoridade britânica de imigração) e li tudo o que outras pessoas tinham feito. 

Ou seja: foi uma lista de documentos que eu construi baseada em : a) informaçōes disponibilizadas pelas autoridades britânicas; b) experiências bem sucedidas de otras pessoas c) minha intuição pessoal. Deu certo, o meu visto saiu logo. 

1. O primeiro passo é acessar o site da WorldBridge, agência que o governo britânico utiliza para cuidar das solicitaçōes de visto, recebimento de documentos, recebimento de taxas e fornecimento de informaçōes sobre todo o procedimento. Leia cuidadosamente todas as informaçōes no site. São vários links, muitos coisa mesmo. É cansativo, eu reconheço, mas quanto mais bem informada você estiver, mais segura se sentirá para enfrentar o processo.


UK Border Agency, orgão do governo britânico
 responsável pelo controle da imigração
2. A seguir, preencha o formulário online (o VAF4) no qual você fornece informaçōes sobre você e seu noivo. São dezenas de perguntas (mais de 10 páginas), mas não são complicadas. Preencha com calma e tranquilidade. Não precisa preencher tudo de uma tacada só - você pode ir salvando a medida que vai preenchendo. Você tem alguns dias para preencher tudo. Depois imprima e assine.

3. Imprima, preencha e assine o formulário Appendix 2, que contém informaçōes financeiras (outras 10 páginas !) sobre como você pretende se manter financeiramente na Inglaterra.  O formulário não é preenchido online - e sim à mão.


4. Ainda por meio do site da WorldBridge, pague a taxa de solicitação do visto (é cara!) com cartão de crédito. Você recebe uma confirmação online do pagamento dessa taxa.

5. Agende a entrevista na sede do WorldBridge de sua preferência, no Brasil. Não é bem uma entrevista - você vai somente entregar a papelada (formulários e  documentos que comprovam as informaçōes apresentadas nos formulários) e se submeter a um teste biométrico. Você recebe uma  confirmação online do agendamento. 

6. Agora é a parte demorada e chata: reunir os documentos que comprovam tudo que você informou nos dois formulários acima. De acordo com o site da UK Border Agency, orgão do governo britânico responsável pelo controle da imigração, :


"All supporting documents must be originals, not copies.
If you do not send us all the documents we need when you make your application, we may refuse your application because of insufficient evidence, and your fee will not be refunded.
    You must send:
  • 2 recent passport photographs and your passport - see the Photographs and passport page
  • evidence of your age and your partner's age
  • official evidence that your and your partner's previous marriage(s) and/or civil partnership(s) broken down permanently, if either of you has been married or in a civil partnership
  • evidence that you intend to marry or register your civil partnership within a reasonable time (usually 6 months)
  • evidence that you have met each other
  • evidence that you intend to live together permanently after you have married or registered your civil partnership
  • evidence of your English language ability - see the English language page
  • evidence that you meet the financial requirement

  • Seguindo as orientaçōes acima, eu reuni os seguintes documentos (meus e os do Mike, meu noivo, que é meu sponsor - ou seja: aquele que se responsabiliza financeiramente por mim na Inglaterra):

Documentos do Mike (meu noivo):
  • Cópia autenticada (pelo Consulado Britânico no Rio de Janeiro) do passaporte dele. Por que apresentei uma cópia autenticada? Porque ele iria viajar a trabalho e não podia ficar sem o seu passaporte;
  • Seis últimos contra-cheques originais;
  • Contrato de trabalho original;
  • Carta (em papel timbrado da empresa) assinada (em inglês) pelo empregador do Mike confirmando que ele é funcionário da empresa e informando há quanto tempo trabalha lá, cargo e salário.
  • Extratos bancários dos seis últimos meses, provando que o salário foi depositado nessa conta. Apresentei extratos originais; não valem os impressos da Internet. (Veja aqui informacōes da UK Border Agency sobre os documentos necessários para comprovar renda).
  • Documento de divórcio original;
  • Carta (em inglês) assinada pelo Mike, chamada de Personal Statement, em que ele se apresenta como cidadão britânico e meu noivo; resume o nosso relacionamento  (onde, como e quando nos conhecemos); confirma nossos planos de casamento na Inglaterra; confirma que ele se responsabiliza financeiramente por mim na Inglaterra e confirma as informaçōes apresentadas no Appendix 2 sobre o seu trabalho e salário.
Meus documentos:
  • Passaporte;
  • Duas fotos 3.5 x 4.5 cm;
  • O meu personal statement - carta, em inglês e assinada, na qual eu me apresento, faço um resumo do nosso relacionamento e confirmo nossos planos de casamento na Inglaterra. 
  • Certificado original de proficiência na língua inglesa. Veja informaçōes gerais sobre essa exigência aqui e sobre certificados aceitos pelo governo inglês aqui ;
  • Certidão original de nascimento, com carimbo do Ministério das Relaçōes Exteriores + tradução juramentada;
  • Documento original de divórcio, com carimbo do Ministério das Relaçōes Exteriores + tradução juramentada;
  • Certidão original negativa de Antecedentes Criminais da Polícia Federal, com carimbo do Ministério das Relaçōes Exteriores + tradução juramentada. Esse certificado de antecendentes criminais não é o online. Fui à PF no Rio e tirei o certificado, que depois foi traduzido por um tradutor juramentado. (Atualização: muita gente me pergunta sobre a necessidade desse documento da PF. Novamente, como disse antes, não existe uma lista definitiva de documentos. Por isso, chequei mil sites, li tudo o que outras pessoas tinham feito e tinha dado certo e decidi incluir esse certificado de antecendentes criminais  por minha conta. Mas não tirei o certificado online; achei que seria mais 'oficial' se eu fosse pessoalmente à sede da PF no Rio. Fui até lá e tirei o documento, que depois foi traduzido por um tradutor juramentado. )
Documentos que comprovam acomodação na Inglaterra:
  • Documento original sobre o mortgage do nosso apartamento;
  • Contas de condomínio, eletricidade, gás, telefone e Internet comprovando a nossa residência na Inglaterra (são chamadas em inglês de utility bills).
Documentos que comprovam nosso relacionamento:
  • Emails (selecionei cerca de 30) trocados entre nós dois;
  • Cartōes (selecionei cerca de 10) de datas especiais, como o Dia dos Namorados e o Natal.
  • Fotos (selecionei cerca de 30) de nós dois em viagens (pelo Brasil e Europa), de nós dois com parentes e de nós dois com amigos;
  • Cartōes de embarque originais de viagens aéreas que fizemos juntos (selecionei cerca de 30), com nossos nomes impressos e assentos lado a lado;
  • Reserva no cartório para realização do nosso casamento na Inglaterra;
  • Reserva em hotéis para a nossa viagem de lua-de-mel.
Outros documentos:
  • Carta de uma amiga confirmando autenticidade de nosso relacionamento, com reconhecimento da firma dela em cartório + tradução juramentada.


7. Você deve entregar todos esses documentos no dia da sua entrevista, junto com os dois formulários assinados. Não adianta separar tudo em pastinhas organizadas com plásticos - os funcionários pedem para tirar toda a papelada de lá. Já sabendo disso, eu grampeei os documentos semelhantes ou referentes ao mesmo assunto. Explicando melhor:  juntei num grupo e grampeei aqueles referentes à comprovação de residência (contas de luz, condomínio etc); em um outro grupo grampeei os referentes ao trabalho do Mike - e assim por diante. Na impossibilidade das pastinhas, ficou tudo organizado dessa maneira.

O funcionário da World Bridge fornece um recibo com a lista de todos os documentos entregues. Alguns dias depois você recebe um email dizendo que os documentos já se encontram no escritório onde serão processados. Acredito que o prazo para você receber uma resposta depende da época do ano, mas eles afirmam que não costuma ser maior que três meses (no meu caso foi bem rápido: 10 dias úteis). Ah, você pode rastrear o andamento da sua solicitação online.

O visto é garantido por 6 meses e dentro desse prazo os noivos deverão se casar e você não tem o direito de trabalhar no Reino Unido. Depois de casados, você pode trocar o visto de noiva por um de casada sem ter que sair da Inglaterra. Mas essa já é outra estória...

QUAL A SEGUNDA LÍNGUA INGLATERRA ?



Você sabe qual a segunda língua mais falada na Reino Unido? Acertou quem disse 'polônes' - língua de cerca de 546 mil pessoas que moram por aqui. Os dados são do Censo 2011, que também mostrou que Londres continua sendo uma Torre de Babel: foram registradas nada menos que 100 línguas estrangeiras faladas por moradores da capital.

A pesquisa revelou ainda que uma em cada cinco pessoas que moram em Londres não usa o inglês como sua primeira língua. E cerca de 140 mil moradores do RU não sabem falar nada de inglês! 

Os jornais publicaram os dados do Censo com destaque na primeira página e dezenas de leitores comentaram a notícia. Muitos ingleses reagiram à matéria do Daily Mail como Tony, de Londres, que lamentou, amargamente, a invasão dos estrangeiros: "Trabalho em East London, onde quase ninguém fala inglês. Eu me sinto um estrangeiro quando vou nas lojas por lá ". Irônico, um outro leitor disse: 'Vou mudar meu nome para Gazki para ver se consigo um emprego', uma clara referência aos imigrantes, que, para muitos, 'roubam' os empregos dos nativos. 

Cheetham Hill Road, em Manchester: diversidade cultural


Uma das ruas que mais reflete a diversidade ingleses é a Cheetham Hill Road, em Manchester, onde convivem, lado a lado, uma delicatessen polonesa, pubs irlandeses, confeitaria árabe, supermercado paquistanês e cabelereiro jamaicano. O Censo mostrou que para quase a metade (48%!) dos moradores do distrito Norte da cidade - lar de imigrantes vindos de todos os cantos do planeta - o inglês não é a primeira língua. Eu já tinha falado dessa diversidade cultural de Manchester aqui.