Eu recebo semanalmente de-ze-nas de emails de leitores que, muito decepcionados com o Brasil, desejam morar em um outro país - como a Inglaterra. Eles me pedem dicas sobre trabalho, salário e custo de vida por aqui. O que digo para todos é o que vou tentar resumir agora.
A realidade de morar na Inglaterra tem dois lados...
O lado bom:
1. O serviço britânico público de saúde (National Health System, conhecido simplesmente como NHS) é excelente. O atendimento, a eficiência e a organização estão a milhōes de anos de luz do sistema público de saúde no Brasil. É claro que o acesso a esse sistema é restrito aos residentes legais no país ( salvo em caso de um turista precisar de uma emergência médica).
2. Para quem aprecia, a vida cultural na Inglaterra é fantástica. Há muitas opçōes de museus, castelos, galerias de arte, peças de teatro, shows etc - e não apenas na capital. Todas as cidades de porte médio oferecem permanente e interessante agenda cultural. E mesmo os vilarejos contam com suas feiras, festas e atraçōes locais.
Mas, infelizmente - e aí já vou mencionando o outro lado dessa moeda - muitas dessas opçōes, como espetáculos teatrais e de ballet, não são grátis, é claro. (Vale dizer que no caso dos museus públicos, por exemplos, a visita ao acervo permanente é grátis; porém o ingresso às exibiçōes temporárias são geralmente pagas). Ou seja: muitos brasileiros que vivem aqui não têm dinheiro para apreciá-las. Não têm dinheiro, nem tempo...
3. Tudo na Inglaterra é mais organizado e prático que no Brasil. O cidadão não enfrenta uma burocracia estressante no seu dia-a-dia como acontece muitas vezes no Brasil. Resolver um assunto numa repartição pública, por exemplo, é algo relativamente fácil.
4.O contribuinte é respeitado. Se você compra algo que apresenta defeito ou não corresponde às suas expectativas, você volta na loja e troca o produto ou ainda devolve o produto - contanto que você apresente nota fiscal e o produto tenha etiqueta - sem estresse.
5. O transporte publico funciona - e é muuuuito bom não ser escrava do carro. Na Inglaterra - assim como em muitas cidades da Europa - o trem e o metrô são eficientes e facilitadores da vida do cidadão. Concordo inteiramente com o post publicado no ótimo blog Virando Gringa : "... Eu aprendi que carro é luxo. Carro é pra ser usado naquelas distâncias mesmo longas, tipo viagens de uma cidade pra outra. Sabe porquê? Transporte público funciona. E a bicicleta é uma alternativa de transporte realmente viável, não apenas um luxo de alguns grupos ousados de pessoas, como no Brasil."
Eu já tinha feito uma reflexão semelhante aqui.
6. Não há violência no nível do Brasil. Assalto à mão armada no meio da rua, roubos de carros, arrastão na praia - essas coisas não acontecem no dia-a-dia.
7. O custo de vida na Inglaterra ė menor que no Brasil. É sim, eu garanto. O conceito 'custo de vida' considera a moeda do salário local do trabalhador (ou seja: se você mora no Brasil, o real; se mora na Inglaterra, a libra; se mora nos Estados Unidos, o dólar - e assim por diante) + os gastos com habitação, educação, saúde, lazer, impostos, serviços + a qualidade desses serviços. Pois bem, se compararmos os gastos mensais de um trabalhador inglês e de um trabalhador brasileiro que ganhem exatamente a mesma quantia ( por exemplo, mil libras / cerca de 4,7 mil reais) dá para perceber que, na ponta do lápis, o cidadão inglês sai ganhando. (Expliquei isso nesse post aqui.)
8. Um dos motivos que leva o cidadão a ter segurança em relação ao custo de vida é o fato que aqui não há inflação.
Mas como nem tudo na vida são flores...
O lado complicado de morar na Inglaterra:
1. A competiçao por trabalho é grande - há muitos imigrantes legais, vindos de países da Comunidade Europeia, que vêm em massa para a Inglaterra atrás de trabalho. Milhares de poloneses e portugueses, por exemplo, deixam seus países para tentar a vida por aqui. Mas esses imigrantes vindos da Comunidade Européia são imigrantes legais, com direito a trabalhar e até a conseguir benefícios sociais.
Só para dimensionar: segundo o último censo, há 7,5 milhoes de imigrantes vivendo na Inglaterra e no País de Gales atualmente - número duas vezes maior que há dez anos e que representa 13% da população desses dois países.
2. Muitos imigrantes legais só conseguem emprego num esquema conhecido como ' zero hour'. Nesse esquema, o empregador não é obrigado a providenciar um número mínimo de horas de trabalho para o empregado. E o funcionário, por sua vez, não é obrigado a aceitar o número de horas oferecido. É um esquema de trabalho que, na prática, faz com que e o empregado nunca saiba quantas horas vai trabalhar por semana e, consequentemente, quanto receberá de salário na semana. A firma faz contato com o empregado um dia ou dois antes e acerta as horas de trabalho para aquela semana. Não é o melhor dos mundos, não é mesmo?
3. Engenheiros, médicos, advogados e outros profissionais brasileiros precisam ter seus diplomas revalidados - processo lento e caro. Não dá para simplesmente chegar aqui, mostrar seu diploma de enfermeira de uma universidade brasileira, por exemplo, e achar que vai ser contratada...
4. Viver em Londres - onde muita gente sonha - é caríssimo. O aluguel é mesmo absurdamente caro - escrevi alguns posts sobre isso...
5. O frio é de amargar mesmo. Faz um frio brabo de novembro até o final de março. Sem contar a chuva, o vento e os dias eternamente cinzentos. Só a partir de abril é que começa a melhorar.

























