HOJE É DIA DE VOTAÇÃO NO REINO UNIDO


Casas de chá, salōes de cabeleireiro, pubs. São vários os locais inusitados que estão abrigando zonas eleitorais hoje - dia em que os eleitores do Reino Unido decidem, nas urnas, quem vão ser seus representantes no Parlamento e quem será o novo primeiro-ministro da nação

O Mike (meu marido, que é inglês) foi cedo votar. O local de votação dele é mais normalzinho : um centro comunitário da igreja do nosso bairro (a St Nicholas' Chruch, como você pode ver na foto acima).  Diferentemente do Brasil,  por aqui o sistema não é digitalizado; a urna não é eletrônica. O eleitor preenche uma cédula e a deposita na urna.


Zonas eleitorais:  abertas das 7 às 10 hs e oferecendo
 orientação ao eleitor

As zonas eleitorais - aqui chamadas de Polling Stations - ficam abertas hoje das 7 da manhã até às 10 da noite recebendo eleitores. Eu não posso votar; sou residente legal na Inglaterra, mas não cidadã britânica. O direito ao voto nessas eleiçōes - chamadas de General Elections - é restrito a cidadãos britânicos ou os cidadãos da Comunidade Britânica (Commonwealth ) residentes no Reino Unido. 

Como eu expliquei aqui, os eleitores votam nos MP (Members of the Parliament, cuja função é semelhante a dos deputados federais no Brasil). O partido que tiver o maior número de MP no Parlamento tem direito a indicar o primeiro-ministro. 

Lavanderias também funcionam como zonas eleitoriais. Foto do jornal The Guardian
O voto não é obrigatório. Para estar apto a votar, o eleitor tem que ter mais de 18 anos e ter se cadastrado antecipadamente online. Com o cadastro feito, ele terá recebido, em casa, um cartao de votação ( o Poll Card), que indica onde deve se encaminhar para a votação.

SERVIÇO DE SAÚDE NA INGLATERRA


O serviço público de saúde na Inglaterra (National Health Service , ou simplesmente NHS ) é realmente muito eficiente e organizado. Para vocês terem uma idéia dessa organização, eu vou contar a experiência que tive com o meu cadastro e a primeira avaliação médica (um check-up) - passos necessários para ter acesso à rede. Na foto acima você vê a entrada do Royal Liverpool University Hospital - o maior da cidade. 

1. Bem, o primeiro passo foi fazer o meu registro online - preenchendo dados básicos como nome, idade e endereço. Lembrando: criado em 1948, o NHS oferece atendimento de qualidade e gratuito a todos os residentes legais do Reino Unido. 

Depois de  preencher meus dados online, escolhi o posto médico mais conveniente para mim (perto da minha casa) e marquei uma consulta de avaliação da minha saúde. Isso foi tudo feito online e não demorou mais que 5 minutos.


O posto de saúde do NHS em Liverpool onde
eu tive minha consulta

2. No dia da consulta, me dirigi ao posto de saúde. Fui atendida, na hora marcada, por uma enfermeira que me fez perguntas sobre o meu histórico de saúde, alimentação e estilo de vida; tirou a minha pressão e me pesou. Mesmo estando com peso e pressão normais, ela me ofereceu várias dicas sobre nutrição balanceada e como evitar risco de desenvolver doenças cardiovasculares etc - informaçōes claras e precisas. 

O NHS se preocupa muito com a prevenção de doenças e em estimular hábitos saudáveis. Por isso, a instituição desenvolve  campanhas anti-tabagismo, estimula atividades físicas e encoraja cuidados com o bem estar mental.  Recebi vários folhetos com outras dicas sobre todos esses assuntos.

3. Em seguida, me dirigi a uma outra sala para fazer um exame de sangue. 

A consulta + exame duraram cerca de 50 minutos. Me avisaram que receberia, por email, o resultado dos exames em breve. Se os exames apresentassem algum problema, eu seria convidada a repeti-los e, confirmando o resultado, seria encaminhada para um médico.

4. Dois dias depois recebi por email o resultado dos exames de sangue (tudo normal!).

A partir de agora, cada vez que eu necessitar, eu posso ir até esse mesmo posto de saúde - não há necessidade de marcar uma consulta. Lá, serei atendida por um médico clínico geral (GP, em inglês). Se necessário, ele encaminha os pacientes para um especialista - ortopedista, cardiologista etc - que trabalha em algum hospital da rede. 


Nesse posto de saúde há também uma farmácia, onde aposentados e outras pessoas que têm direito a benefícios podem recolher os medicamentos receitados pelos médicos sem custos.



Isso é o básico. O NHS oferece vários outros serviços, entre eles:


  • Pacientes idosos e os que apresentem alguma condição de saúde que deve ser acompanhada são avisados regularmente - por meio de correio, emails, ou por mensagem no celular - das datas de exames e consultas periódicas;
  • Pacientes com problemas como alcoolismo, ansiedade e sobre peso, por exemplo, contam com grupos de apoio para lidar com o problema/ condição;
  • Adultos com mais de 40 anos são convidados a fazer check up regulares para avaliar risco de desenvolverem doenças cardiovasculares ou diabetes, por exemplo;
  • Pacientes interessados em monitorar consumo de calorias, álcool ou o ritmo de sua atividade física, por exemplo, contam com  apps desenvolvidos pelo NHS e que podem ser baixados em celulares ou tablets. 

ENTENDA O PARLAMENTO INGLÊS


Daqui a duas semanas vão acontecer eleiçōes importantíssimas no Reino Unido. Além de ser escolhido o novo primeiro-ministro, serão eleitos os Membros do Parlamento  (MP)  que têm função legislativa equivalente a dos deputados federais no Brasil. 


Vão ser eleitos 650 MP - um para cada distrito do Reino Unido. Os MP formam a House of Commons (Câmara de Comuns, semelhante à Câmara Federal, no Brasil). 

A sede da House of Commons é o Palácio de Westminster, em Londres. Você provavelmente já viu foto do Palácio - é aquele famoso prédio em estilo neo-gótico, construído na época Vitoriana, com várias torres e que abriga o Big Ben, como mostram as imagens acima e abaixo ( ambas as foto são da Wikipedia ). 


 A vista aérea da uma idéia da grandiosidade da sede do Parlamento britânico
O Palácio é enorme. Composto por vários prédios e pátios interligados, ocupa 8 acres (cerca de 32,3 mil metros quadrados). É um labirinto de mais de mil salas e galerias, 100 escadarias , corredores que se estendem por três milhas e túneis intermináveis. É lá que são criadas, debatidas e aprovadas as leis que afetam todos os residentes do Reino Unido.

O Parlamento britânico funciona há 800 anos. Foi em 15 de junho de 1215 que o então monarca - King John (Rei João Sem Terra)  - assinou a  Magna Carta , primeiro documento a colocar por escrito alguns direitos do povo inglês, e por isso mesmo considerado a primeira constituição que houve no mundo. E por que o rei concordou ( e estamos falando da Idade Média! ) em assinar um documento que de certa forma reduzia os seus poderes? Bem, o monarca havia sofrido uma derrota significativa para os franceses durante a Batalha de Bouvines, perdendo o Ducado da Normandia. O rei cede então à pressão dos barões ingleses e assina a Magna Carta. Com isso, estabelece-se uma nova relação com os seus governados e a limitação do poder da Coroa - elementos primordiais a uma ordem jurídica democrática.

Para homenagear essa história , os parlamentares britânicos preservam até hoje uma série de rituais que datam de outros séculos e podem parecer, às vezes, muito anacrônicos e esquisitos para nós. Por exemplo, as sessōes começam sempre com oraçōes ecumênicas - prática que data de 1558 (mas os parlamentares não são obrigados a comparecer às oraçōes). 

Outra tradição diz respeito ao próprio posicionamento dos parlamentares quando se reúnem no Plenário Central (chamado, em inglês, de Main Chamber).  Eles sentam em bloco. Ou seja: membros do Partido Conservador sentam juntos somente de outros membros do Partido Conservador; parlamentares do Partido Trabalhista sentam ao lado somente de parlamentares do Partido Trabalhista - e assim por diante. Na prática, o que acontece é que esses dois grandes grupos (Conservadores e Trabalhadores) sentam frente a frente - o que facilita o confronto na hora do debate. E, quando o líder de um partido discursa, seus correligionários dão gritos de apoio, dizendo "Hear ! Hear " ( "Eu te escuto ( e concordo!)) !




O primeiro-ministro David Cameron é sabatinado
pela oposição no Parlamento

Toda quarta-feira o primeiro-ministro vai até o Parlamento numa outra tradição - conhecida como Prime-Minister Questions. Nesse dia ele responde, durante uma hora, às perguntas dos parlamentares sobre sua administração. Ou seja: é sabatinado pela oposição,  como você pode ver na foto ao lado.  Esse é o dia em que as galerias abertas ao público  ficam mais cheias de gente; todo mundo querendo observar o confronto. Somente residentes do país têm acesso a essas galerias, mas você pode assistir ao embate também - acesse o Youtubeas sessōes são sempre filmadas.







O confronto é sempre vigoroso, é claro, mas muitas vezes a discussão é além de calorosa - partindo para insultos, de uma maneira meio juvenil e dramática. É o teatro da política. 

Conservadores de um lado, Trabalhadores do outro: começa o confronto
na House of Commons

As sessōes acontecem no andar térreo do Plenário, que dispōe de 427 lugares - assentos estofados tradicionalmente em tecido verde. Mas como eu disse antes, são 650 Parlamentares. Ou seja: em dia de sessão movimentada, não há lugar para todos no andar térreo e muitos dos parlamentares têm que se acomodar na galeria do andar de cima (Upper Gallery). 

O que muitos parlamentares fazem para garantir um lugar quando há uma sessão importante é chegar cedo e reservar um dos assentos com uma plaquinha. Isso mesmo: a reserva é feita como uma plaquinha com o seu nome - da mesma forma que é feito há 200 anos. 

Foi o que aconteceu há algumas semanas, quando o Ministro das Finanças, George Osbourne, apresentou aos parlamentares a proposta de Orçamento para o ano de 2015.  Esse dia, bem movimentado na política britânica, é conhecido como Budget Day. Quando o Plenário abriu as portas às 8 da manhã,  já havia muitos parlamentares na fila esperando para reservar o seu lugar. Detalhe: não vale enviar um assessor para reservar o lugar - tem que ir pessoalmente mesmo; e também não vale reservar o lugar e chegar atrasado à sessão. Se não estiver pontualmente no início da abertura do Plenário, a reserva de lugar é cancelada...

Rituais no Parlamento inglês: o Presidente da Casa se dirige com pompa
ao Plenário
O funcionamento do Parlamento britânico inclui muitos outros rituais seculares e curiosos. Por exemplo, a cada sessão, o Speaker of the House (Presidente da Casa), se dirige até o Plenário de maneira formal e pomposa, passando por várias galerias e sempre cercado de assessores. Guardas gritam alto "Speaker !", para avisar as pessoas que estão perto que elas devem levantar e dar passagem ao Presidente da Casa. Outro ritual fica por conta de um outro alto funcionário do Parlamento, o Clerk of the House  (Secretário da Casa) que sempre veste uma capa do século XVIII de veludo e seda preta e uma peruca branca  - como a que os advogados britânicos usam durante os julgamentos -  para anunciar o início dos trabalhos. 

Essas roupas são tradicionais e muito bonitas, mas custam caro. Robes, capas, luvas, perucas, coletes etc chegam a custar à Casa cerca de 26 mil libras ao ano. Mas isso não é nada perto do verdadeiro abacaxi financeiro que o Parlamento enfrenta : segundo o jornal The Guardian, somente as obras de Palácio - que sofre  com problemas de estrutura, como infiltraçōes graves - vão custar cerca 3 bilhōes de libras.

Ou seja: o Parlamento realmente precisa levantar recursos. Por isso, o atual Presidente da Casa, John Bercow,  preocupado com as contas, tem tentado desde o último ano introduzir um projeto que visa a aproveitar o potencial do Palácio - aceitando contratos com companhias de cinema que desejem filmar nas dependências do Palácio. É claro que essa idéia não agradou a todo mundo. 

Mas o que eu acho mesmo muito bacana no Parlamento é a movimentação popular. Os eleitores realmente pressionam os parlamentares em que votaram - e não apenas por email; eles vão até o Palácio de Westminster, nos dias da votação de emendas ou projetos de lei que sejam do seu interesse, para checar como os parlamentares estão votando. Nós podíamos aprender a fazer o mesmo com os nossos parlamentares...

Se você  estiver em Londres e quiser conhecer de perto o Parlamento britânico, organize sua visita onlineTuristas e público em geral podem visitar algumas salas e galerias e até mesmo observar algumas sessōes. 


Leia também: 

O QUE QUEREM OS ELEITORES INGLESES ?


O Reino Unido se prepara para ir às urnas daqui a três semanas para escolher os seus representantes do Parlamento e também o seu futuro primeiro-ministro (entenda como funciona o sistema eleitoral do país aqui). Quais são, então, as preocupaçōes do eleitor britânico? Quais os assuntos que ele quer ver resolvidos pelos seus representantes no governo?

De acordo com as principais pesquisasa maior preocupação da população é com o gerenciamento do sistema público de saúde (National Health System, conhecido simplesmente como NHS). Fundado em 1948, o NHS é considerado um dos melhores sistemas públicos de saúde do mundo - uma conquista da democracia britânica. Para manter essa qualidade dos serviços médicos e odontológicos é necessário muito investimento, é claro. E é essa justamente a maior preocupação dos eleitores : há muito receio que decisões de cortes nos investimentos do setor nos últimos anos -  consequência da política de austeridade do governo do primeiro-ministro David Cameron -  estejam comprometendo (ou venham num futuro muito próximo a comprometer ) a qualidade dos serviços. 


Outra grande preocupação da população é com o controle da imigração. A maioria da população - e em especial o eleitorado conservador - aprova medidas de controle nas regras de imigração. Segundo o primeiro-ministro David Cameron, cerca de 8,3 milhoes de imigrantes chegaram ao Reino Unido de 1974 até 2004; e a previsão é que mais 4 milhoes nos próximos sete anos. Para a maioria dos britânicos, os imigrantes representam competição no mercado de trabalho. Além disso, eles ressentem o fato que imigrantes vindos de países da UE tenham acesso aos benefícios sociais britânicos.

A população também se mostra preocupada com o desempenho da economia. O país levou um susto em 2011 quando, no período de alta recessão por aqui, a economia britânica foi rebaixada a um sétimo lugar mundial, atrás do Brasil. Era a primeira vez que a economia da Grã Bretanha ficava atrás de um país da América Latina no ranking divulgado pelo Centre for Economics and Business Research. De lá para cá, a economia britânica se recuperou, mas a preocupação continua grande. O aumento do custo de vida também é prioridade especialmente entre os mais jovens (entre 18 e 24), que estão na luta pelo primeiro emprego e enfrentando dificuldades em pagar as contas do dia-a-dia.

Por fim, uma outra grande preocupação dos britânicos, de acordo com pesquisa realizada pela rede de TV ITV, é com a redução de desigualdade. Ou seja: a população tem como prioridade que os benefícios trazidos pelo crescimento econômico sejam compartilhados por todas as camadas da sociedade.  

Leia também:

Como a Inglaterra evita a corrupção parte 1
Como a Inglaterra evita a corrupção parte 2
Política e ética na Inglaterra

QUEM SERÁ NOVO PRIMEIRO-MINISTRO DO REINO UNIDO ?


As eleiçōes britânicas acontecem daqui a quatro semanas: no dia 7 de maio. O pleito promete ser o mais disputado da história moderna do país. Segundo as pesquisas, os dois principais candidatos ao cargo de primeiro-ministro estão tecnicamente empatados nas intençōes de voto. 

Mas você conhece os dois principais candidatos ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido? Deixa eu te contar um pouco sobre eles:

(Lembrando: o eleitor NÃO vai votar diretamente no primeiro-ministro; ele vai votar num MP - Membro do Parlamento -, que vai representar o distrito onde o eleitor mora. O partido que tiver mais MPs no Parlamento - ao todo são 560 cadeiras - ganha a eleição e seu líder passa a ser o primeiro-ministro. Eu expliquei com detalhes o sistema eleitoral britânico aqui e aqui)

Os principais candidatos ao cargo mais importante da política britânica são: Ed Miliband, líder do Partido Trabalhista ( à esquerda, na foto acima) e David Cameron - candidato à releeição pelo Partido Conservador.  Existem candidatos de outros partidos (como o do partido de ultra-direita, chamado Partido UKIP, e o do Partido Verde), mas as chances desses candidatos ganharem o pleito são praticamente nulas. 

Quais são o perfil e as plataformas dos dois candidatos com as maiores chances?


Ed Miliband, o candidato do Partido Trabalhista

  • Para começar, se Ed Miliband vencer, significa que a esquerda volta ao poder no Reino Unido depois de oito anos de governo conservador.   
  • No centro de suas propostas está a promessa de investir 2.5 bilhōes de libras no sistema público de saúde (NHS) - uma instituição extremamente eficiente e que os britânicos têm muito orgulho e preocupação. Essa preocupação é justificada, pois para funcionar eficientemente, o sistema exige investimento constante. Miliband e seu partido criticam severamente a política de austeridade do atual governo - que reduziu o investimento no setor e terceirizou muitos dos serviços da saúde.
  • Miliband promete aumentar ainda o salário mínimo para 8 libras por hora (atualmente é 6,5 por hora) e também diminuir os impostos das pessoas que têm renda mais baixa. 
  • Mas de onde Miliband pretende conseguir essa verba toda para financiar as propostas acima? Principalmente aumentando impostos dos mais ricos - como o imposto que pretende criar para os contribuintes que são donos de mansōes avaliadas acima de 2 milhōes de libras. Dá para você entender porque os super ricos ficam de cabelo em pé ao pensar que ele pode vencer a eleição...
  • Uma outra proposta do candidato do partido Trabalhista é acabar com o contrato de trabalho conhecido como zero-hora,  que ele considera "escandaloso". Esse esquema de trabalho, inventado pelo governo Conservador, é o fim da picada mesmo - pois não garante ao trabalhador um mínimo de horas trabalhadas. Funciona assim: o empregador não é obrigado a providenciar um número mínimo de horas de trabalho para o empregado. E o funcionário, por sua vez, não é obrigado a aceitar o número de horas oferecido. É um esquema de trabalho que, na prática, faz com que e o empregado nunca saiba quantas horas vai trabalhar por semana e, consequentemente, quanto receberá de salário no final da semana. A firma faz contato com o empregado um dia ou dois antes e acerta as horas de trabalho para aquela semana. Ou seja: é um esquema que beneficia apenas os empregadores. Atualmente existem 700 mil pessoas que trabalham no esquema zero hour contract no Reino Unido - muitos deles imigrantes. O candidato Trabalhista promete acabar com esse esquema. 
  •  Milliband defende ainda a permanência do Reino Unido na União Européia - ao contrário do candidato conservador. Ele argumenta que a UE é importante para a nação pois garante oportunidades de comércio e trabalho, além de constituir uma força estratégica para assuntos como, por exemplo, o combate ao terrorismo ou o desenvolvimento de políticas para lidar com alteraçōes climáticas. 
Miliband enfrenta problema de imagem

Mas para dar tudo certo para Miliband, ele tem que vencer a sua imagem de geek (palavra que significa algo como 'esquisitao'). Vira e mexe ele aparece em fotos, como essas aí do lado, fazendo caretas, com um ar meio pateta... Para grande parte do eleitorado britânico, fica difícil imaginar um geek sendo primeiro-Ministro da nação. 

Ed Miliband, líder do Partido Trabalhista, tem 45 anos, é londrino, casado e tem dois filhos. É formado pelo curso de 'Filosofia, Política e Economia' da Universidade de Oxford e fez mestrado em Economia pela London School of Economics.

E David Cameron - o candidato do Partido Conservador - quais são suas propostas? 

David Cameron defende a continuação na estrada por uma economia mais forte.
Isso significa a continuidade da política de  austeridade?
  • Bem, David Cameron está concorrendo à reeleição, como eu já disse. É primeiro-ministro de um governo de coalizão (Conservadores + Liberais Democratas) - o que é uma novidade no Reino Unido; esse é o primeiro governo de coalizão desde 1945. Diferente do Brasil, né ?, que sempre tem um presidente eleito a partir de uma grande coalizão ( às vezes de mais de sete, oito partidos).
  • Uma de suas plataformas mais importantes - e que tem grande aprovação do eleitorado conservador - relaciona-se ao controle nas regras de imigração. Há cerca de 7.5 milhoes de imigrantes no Reino Unido; e a previsão é que esse número aumente, é claro. De acordo com o primeiro-ministro, esse crescimento provoca enorme impacto sócio-econômico ao país e precisa ser controlado. 
  • David Cameron conta com indicadores econômicos positivos que mostram uma sólida recuperação da economia britânica, depois de anos de recessão. Por isso, a mensagem dele é pela continuação "na estrada para uma economia mais forte", como mostra a imagem aí de cima. 
  • Mas aí vem o problema: para vencer a recessão, sua administração se valeu de severa austeridade econômica.  E isso é um pepino para ele agora , é claro, como candidato à reeleição. Cameron enfrenta sérias críticas aos cortes feitos especialmente no sistema público de saúde (NHS). Político experiente que é, ele alega que não foram cortes e sim adequaçōes orçamentárias.
  • Seu governo é também responsável pela introdução do "contrato de zero hora", altamente impopular entre a população, como expliquei acima. Cameron entrou numa saia-justa enorme quando, pressionado recentemente por um jornalista durante um debate eleitoral televisivo, reconheceu que não conseguiria viver num esquema de trabalho desse, inventado pelo seu próprio governo...
David Cameron, candidato do Partido Conservador

  • Outro abacaxi que Cameron enfrenta é explicar a razão do escandaloso crescimento do número de pessoas que têm que recorrer a esquemas emergenciais de doação de alimentos para sobreviver. Segundo dados recentes, cerca de 900 mil pessoas no país precisam da ajuda desses esquemas - conhecidos como food banks. Eu fiz um post, há um ano, explicando essa situação aqui

  • David Cameron, atual primeiro-ministro, é londrino e tem 48 anos. É casado e tem 4 filhos. Como o seu oponente, ele também fez a graduação no curso de 'Filosofia, Política e Economia' da Universidade de Oxford.
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DIFERENÇAS ENTRE ELEIÇÃO NO REINO UNIDO E NO BRASIL


Daqui a 35 dias, o Reino Unido vai às urnas decidir quem vai ser o próximo primeiro-ministro. Os dois principais candidatos são David Cameron, do Partido Conservador e concorrendo à releeição, e Ed Milliband, do Partido Trabalhista. 

Mas os eleitores não votam diretamente nos dois candidatos. O sistema eleitoral no Brasil e no Reino Unido tem diferenças fundamentais:

1. Para começar, o voto aqui é distrital. Funciona assim: o Reino Unido é dividido em 650 distritos eleitorais - cada um com uma média de 70 mil eleitores. Por exemplo: o distrito onde eu e o Mike moramos se chama Liverpool Riverside (com cerca de 73 mil eleitores). 

O eleitor então vota no candidato de sua preferência para representar o seu distrito. Cada distrito elege um representante - o Member of Parliament, chamado de MP. Ou seja: 650 distritos eleitorais correspondem a 650 representantes no Parlamento (650 MPs). O partido que obtém a maioria absoluta de MPs (326 MPs num total de 650) é chamado pela rainha a formar Governo e o seu líder torna-se primeiro-ministro. O primeiro-ministro escolhe então o seu gabinete.


2. Outra diferença é que não existe segundo-turno, vence o candidato que tiver o maior número de votos no distrito - mesmo que tenha 25% dos votos, por exemplo. Por isso que os cientistas políticos chamam esse tipo de sistema de "voto distrital majoritário". 

3. A  terceira diferença importante é que aqui o voto não é obrigatório. O voto é um direito: o eleitor vota se quiser, se achar que algum candidato de fato o representa, ou se achar que é necessário que sua opinião seja representada. O cidadão que desejar votar em alguma eleição deverá ter 18 anos e se cadastrar - o cadastro pode ser feito online. 


O voto facultativo gera algumas particulariedades. Segundo o Electoral Comission, uma espécie de TRE daqui, nas últimas eleiçōes legislativas, apenas 65% da população votou.  A abstenção é significativa especialmente entre os mais jovens - cerca de 70.2 % das pessoas entre 20 e 24 anos optaram por não votar. Para tentar reverter essa situação e conquistar o eleitorado jovem, os partidos promovem programas educativos sobre a importância do voto, utilizando mídias sociais para divulgação e compartilhamento do slogan VOTE SIM !

4. A última diferença entre o sistema eleitoral daqui e o do Brasil: por incrível que pareça, aqui a eleição não é eletrônica. Acontece como era antigamente no Brasil: os eleitores marcam o representante de sua preferência numa cédula que é então depositada na urna - a ballot box

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SE A VIDA TE DER UM LIMÃO...


Se a vida te der um limão, faça uma limonada !  A inglesa Jack Monroe fez bem isso. Ela podia ter ficado deprimida com a sua vida: jovem mãe solteira e desempregada, Jack procurava em vão emprego há cinco meses, enquanto dava duro para esticar o benefício social que ganhava do governo para viver e sustentar seu filho de 2 anos. Revoltada com a recessão e a escassez de oferta de empregos no país, Jack decidiu começar um blog  em que discutia política e descrevia a sua luta pessoal em busca de trabalho. O blog incluía também budget recipes - receitas super baratas ( menos de seis reais cada uma ) -, mas  nutritivas, criativas e saborosas que inventava com o seu limitado orçamento de 10 libras (cerca de 40 reais) para gastar com comida por semana. 


Tirada do blog da Jack, essa foto é da receita 'Mixed Bean Goulash'

Pois não é que uma jornalista do jornal Daily Telegraph leu o blog, adorou, e escreveu uma matéria sobre Jack e suas receitas baratas e nutritivas? A reportagem - My 49p Lunch With A Girl Called Jack  ("Meu almoço de 49 centavos com uma garota chamada Jack") - fez um sucesso danado entre os leitores  e a vida de Jack mudou para sempre. Ela apareceu em dezenas de outras matérias de jornais e revistas, programas de TV, escreveu um livro (com as receitas) e virou colunista de culinária do jornal The Guardian. 

E as receitas? Com ingredientes variados - e sempre Incluindo muitas frutas, legumes e grãos - , tem de tudo: massas, hamburgers, sopas reforçadas, pães caseiros, tortinhas de frutas... No blog, ela mostra quais são os produtos mais baratos,  como substituir ingredientes caros por outros mais em conta e como se virar para produzir refeiçōes saborosas com pouco dindin.  



VALORIZAÇÃO DO IDOSO NO REINO UNIDO


Assim que cheguei aqui no Reino Unido eu notei como os idosos participam de todo tipo de atividades culturais e de lazer:  visitam museus e galerias de arte; assistem cursos e palestras em universidades; são voluntários em associaçōes de caridade; comemoram festas e feriados com os amigos em clubes comunitários e pubs. O que eu quero dizer é que a maioria não depende dos familiares para 'ter uma vida' (nem fica trancada em casa vendo TV). Existe uma clara política pública de valorização da terceira idade. A idéia é evitar que se sintam isolados, sozinhos ( o que pode gerar uma possível depressão), tirá-los de casa, promover sua independência e interação com as outras pessoas. 

No prédio onde tenho aula, na Universidade de Liverpool, há sempre dezenas de pessoas acima de 65 anos. Elas estão matriculadas em cursos livres de curta duração, sobre todos os assuntos: História, Literatura, Línguas, História da Arte. Os cursos não são direcionados para os idosos - ou seja: eles interagem com pessoas de todas as idades que partilham do mesmo interesse. Num dos meus cursos tinha uma senhorinha de cerca de 80 anos, que pegava dois ônibus para chegar na universidade e aprender mais sobre Marc Chagall - não é bárbaro ?!! 



Para garantir acesso às atividades culturais e de lazer como essas, os idosos têm sempre passe livre ou um bom desconto. Além disso,  o transporte público aqui é muito bom e age-friendly. Existe também a preocupação com o acesso às ruas, a manutenção de calçadas limpas e seguras ( para evitar tombos) e a instalação de banheiros públicos.  Pelo que tenho lido na mídia ( e visto pelas minhas viagens por aí) , as cidades britânicas estão sempre se adaptando para garantir o bem estar dos cidadãos acima de 65 anos. Essa é uma preocupação crescente: hoje eles somam 10 milhōes de pessoas no Reino Unido e a expectativa é que esse número deva duplicar nos próximos 30 anos !

Manchester (noroeste da Inglaterra) é conhecida pela preocupação com a valorização e inclusão do idoso. Foi a primeira cidade britânica a fazer parte da  Age Friendly Network ( Cidades Amigas do Idoso) da Organização Mundial de Saúde. Participam dessa rede representantes do poder público, de ONGs, voluntários, empresários e representantes de organizaçōes de apoio aos idosos (há várias por aqui, como a Age UK). Eles desenvolvem e partilham idéias - como  projetos urbanísticos de espaços exteriores e edifícios - que propõem melhorar a qualidade de vida do pessoal da terceira idade. Veja aqui esse vídeo-reportagem da BBC bem bacana sobre o assunto. 

JARDINS COMUNITÁRIOS NA INGLATERRA


Um projeto que eu adoro aqui na Inglaterra é o dos community gardens que transforma terrenos baldios de propriedade da Prefeitura e União - que viviam repletos de lixo e mato alto - em lindos jardins e hortas, mantidos pela comunidade. O projeto atinge muitas objetivos ao mesmo tempo : flores e plantas criam um lindo espaço de lazer e contemplação para os moradores; os legumes e frutas cultivados são distribuídos pelos moradores-voluntários que participam do projeto; e o trabalho coletivo na construção desses jardins encoraja a formação de laços entre os moradores, fortalecendo a comunidade.

São mais de 100 jardins espalhados por áreas urbanas e rurais do Reino Unido.  Os voluntários são de todas e idades e de diferentes backgrounds. Alguns dos projetos são desenvolvidos para oferecer apoio especial a certos grupos. Por exemplo: em Avshire, na Escócia, um jardim foi criado para ajudar ex-combatentes que serviram nas Forças Armadas - o trabalho no jardim serve, até hoje, como terapia para combater transtorno de estresse pós-traumáticoo. Já em Londres, moradores e sem-teto trabalham juntos no jardim batizado de Putting Down Roots (Criando Raízes) - frutas e legumes são vendidas e a renda é revertida para os sem-teto. Para muitas crianças e jovens que participam desses projetos, a jardinagem é uma maneira de aprender a valorizar o cultivo da terra; já para idosos a jardinagem transforma-se num hobby bem bacana

REINO UNIDO: QUASE 1 MILHÃO RECORREM DOAÇÃO ALIMENTOS PARA SOBREVIVER

Mais de 900 mil pessoas no Reino Unido tiveram que recorrer, no ano passado, a um esquema emergencial de doação de alimentos básicos para sobreviver. Os dados, da Trussell Trust, uma gigantesca instituição de caridade no Reino Unido, foram divulgados ontem em toda a mídia. Chamado de food bank (banco de alimentos), o esquema funciona a partir do trabalho coletivo de ONGS, igrejas, voluntários e membros da sociedade civil - ou seja: não é um projeto governamental. 

As doaçōes de alimentos não-perecíveis são feitas em igrejas, escolas, universidades e outras instituiçōes. Voluntários coletam os alimentos, verificam a data de validade e empacotam tudo. Médicos, assistentes sociais e outros agentes de saúde são os responsáveis por identificar e cadastrar as pessoas em situação de risco - ou seja: aquelas que precisam de alimentos imediatamente. As pessoas não podem simplesmente aparecer e dizer que precisam de uma cesta de produtos básicos. Ao ser identificadas e indicadas por profissionais de saúde, elas recebem um voucher para ser trocado por alimentos no posto de atendimento. Cada voucher garante três dias de alimentos. 


Da esquerda: eu peguei na Universidade de Liverpool essa lista que oferece sugestão de alimentos que podem ser doados; voluntários organizando os alimentos; a Roman Catholic Cathedral,
também em Liverpool, recebe doaçōes de produtos para o Food Bank
Sem dúvida alguma, a notícia é pra lá de triste. Para o jornal The Independent " trata-se de um "escândalo que envorgonha a Grã-Bretanha". O jornal garante que a situação piorou com a política de corte dos benefícios sociais implementados pelo Governo.  Como primeiro-ministro David Cameron responde às críticas? Segundo ele, os cortes fazem parte de um missão moral que tem como objetivo dar aos desempregados britânicos 'esperança e responsabilidade". Sério??!


Se até para a Inglaterra a situação está ficando difícil...

CONECTANDO VIZINHOS ATRAVÉS DE REFEIÇŌES


A idéia por trás do projeto Casserole Club é muito simples: conectar gente que gosta de cozinhar e deseja partilhar a refeição que prepara, com vizinhos idosos e solitários que apreciariam um prato de comida caseira e a companhia. Já são mais de mil participantes - gente como Oruj, 34 anos, e Munna, 80 (as duas da foto), que regularmente dividem o jantar preparado pela jovem executiva.

 "I wanted to have some communication with my community, the people around me " ("Eu queria me comunicar com a minha comunidade, as pessoas ao redor de mim"), explicou Oruj à revista Red sobre a motivação que a leva a regularmente visitar Munna no asilo onde a idosa mora. Uma idéia simples mas muito bacana, não é mesmo?